O presente projeto de pesquisa delineou-se a partir de questões surgidas na leitura da tese “A Força da Realidade na Clínica Freudiana” de autoria de Nelson Coelho Jr., a quem cabe, portanto, expressar nossa gratidão.

Neste trabalho, cruzando o exame das noções de realidade na obra freudiana com a reflexão sobre relatos clínicos de análises empreendidas por Freud e por ele mesmo, Nelson propõe o conceito de realidade clínica. Através de tal conceito, Nelson visa circunscrever a especificidade da situação clínica, criando um articulador teórico para a tensão entre realidade externa e realidade psíquica que permita pensar os modos pelos quais as mencionadas polaridades comparecem na dinâmica das curas.

Em seu trabalho, a construção do conceito de realidade clínica conhece uma passagem decisiva num ensaio denominado Pedro – A Realidade entre o Visível e o Invisível. Nelson aí discute o caso de Pedro, um jovem de 15 anos que se queixa de uma afecção cutânea que, em entrevista prévia, seu pai, médico, nomeara como uma “psicodermatite de fundo indubitavelmente psíquico, emocional”.

Logo na primeira ida ao consultório, suspeitando de que o analista não acredite quão sério é o que acontece em sua pele, Pedro lhe pergunta se quer vê-la, nas lesões. Nelson conta o que se segue:

Devolvo, perguntando a ele se quer me mostrar, se quer que eu veja. Ele mostra. Eu vejo. Foi difícil manter o olhar sobre seus pés e pernas. Difícil ver um corpo deformado por feridas alérgicas, semelhante a pernas e chagas à mostra por mendigos no centro de São Paulo. Algo se construía neste momento inicial de trabalho. Algo do setting, algo do binômio fala/escuta tinha sido rompido.

Em consonância com a seqüência exitosa do tratamento, Nelson vem a propor a idéia de que abrir-se ao mostrar/ver teria propiciado a mobilização e a expressão de determinações traumáticas sobre as quais Pedro não havia feito a experiência de uma fala própria, de modo que a função do analista consistiu em acolher em ato a visibilização do indizível para poder incluí-lo na dimensão da palavra.

Não obstante, detive-me no fato de que Nelson, num primeiro momento, viveu as agruras de uma contradição entre o caminho da cura – que apontava ao mostrar/ver – e os limites de uma certa concepção do setting – circunscrito ao falar/escutar.

Coloquemos assim:
– o analista percebeu que era decisivo abrir-se ao mostrar/ver;
– o analista expôs sua percepção a deformidades repulsivas;
– o analista percebeu-se como rompendo a forma canônica do setting;
– tais percepções custaram ao analista conflito e sofrimento psíquico;
– aprender com este sofrimento psíquico é fazer psicopatologia psicanalítica.

Ao utilizar a categoria da percepção, tenho em mente uma operação que, sem deixar de ter efetividade no plano cognitivo, deite raízes naquilo que Merleau-Ponty, após perquirir os processos antepredicativos de sentido originários no corpo, veio a designar por carne. Busco assim situar o processo psicanalítico de produção de sentido em um âmbito salvaguardado da soberania da consciência de si reflexiva e do paradigma iluminista que identifica os entraves da cura aos pontos cegos do analista.

Ao evocar, em conexão com a noção merleau-pontyana de percepção, a idéia de uma aprendizagem, tenho presente a concepção de Pierre Fédida, segundo o qual, na minha leitura, psicopatologia consiste em poder aprender desde dentro com a paixão, com o sofrimento. Invoco as palavras de Fédida:

(…) na tradição do poeta Ésquilo (seria interessante ler a peça Agamenon) emprega-se a expressão ‘Patei-matos’ para designar o que é pático, o que é paixão, o que é vivido. Aquilo que pode se tornar experiência. Em alemão se empregam os verbos erleben (presenciar) – erfahren (experimentar). ‘Psicopatologia’ literalmente quer dizer: um sofrimento que porta em si mesmo a possibilidade de um ensinamento interno.

Observa-se que há uma interioridade em jogo. Para que se dê um ensinamento interno, é necessário que se constitua essa dimensão de interioridade. Emprego a noção de constituição e não de existência na medida em que considero que o próprio âmbito em que ocorre a aprendizagem não é dado e sim conquistado.

Ora, constituir essa dimensão de interioridade onde o sofrimento possa tornar-se ensinamento não seria o escopo mesmo da realidade clínica?

Dessa interioridade situada no caminho entre a realidade exterior e a realidade psíquica acredito ter encontrado em Freud um recorte metapsicológico onde a percepção e o inconsciente pontilham o roteiro do tratamento psicanalítico:

Normalmente, todos os caminhos desde a percepção até o Ics. permanecem abertos e só os que partem do Ics. estão sujeitos ao bloqueio pela repressão (…) … 0 tratamento psicanalítico se baseia numa influência do Ics. a partir da direção do Cs. e pelo menos demonstra que, embora se trate de uma tarefa laboriosa, não é impossível. Os derivados do Ics. que agem como intermediários entre os dois sistemas desvendam o caminho (….) para que isto se realize.

A título de hipótese diretriz do presente projeto de pesquisa, proponho que os derivados do Ics. que agem como intermediários entre o Pcs. e o Cs. constituem o lugar metapsicológico da realidade clínica. Proponho, ainda, que a noção merleu-pontyana de reflexão sensível seja pertinente e frutífera para pensar os modos pelos quais a percepção informa a realidade clínica.

O prosseguimento da pesquisa buscará material no depoimento e nas obras de artistas como Eisenstein e Fernando Pessoa, bem como na experiência dos analistas que ousam escancarar os bastidores de seus atos.

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