Categoria Psicólogo e Psicanalista

Trabalho final da disciplina ‘Teoria Política’ Ministrada pelo Prof. Francisco C. Weffort – 1º. semestre/1988

Esta lição de Maquiavel, seu saudável amor pela ‘verità effetuale delle cose’, (….) me fez lembrar que os grandes teóricos, que são marcos da filosofia política clássica, viveram e pensaram em meio às grandes revoluções dos séculos XVII e XVIII, ou às vésperas delas, para dar respostas a questões com que os confrontava a realidade de seu tempo (….) e são nossas ainda hoje, de tal modo que retornar à herança que nos legaram é pensar, na atualidade, os desdobramentos da filosofia política que construíram e avaliar sua atualidade para interpretar nossa própria realidade (…) 1.

Os seguidores do realismo conservador pretendem-se inspirados em Maquiavel e, contudo, deixam de lado um ensinamento essencial do mestre florentino. O verdadeiro realismo político consiste em ver os acontecimentos como ‘cose a fare’. (…) Nenhuma democracia se construiu jamais como simples reflexo de exigências supostamente inelutáveis da história. (…) Por mais que as condições pesem, por mais que o passado se imponha, sempre há escolhas a fazer. (….) a ação política (…) é, por excelência, um ato de liberdade (…) 2.

Os gregos (…) foram os primeiros a pensar sistematicamente sobre política, a observar, descrever e, finalmente, formular teorias políticas. (…) Afinal de contas foram os gregos que descobriram não apenas a democracia, mas também a política – a arte de decidir através da discussão pública – e, então, de obedecer às decisões como condição necessária de existência social civilizada. (……) Protágoras (…) desenvolvia uma teoria política democrática. A essência dessa teoria (…) é que todos os homens possuem ‘politike techne’, a arte do julgamento político, sem a qual não poderia haver uma sociedade civilizada 3.

Dessas citações um tanto extensas é possível tecer alguns comentários, deslindando relações entre o tema deste trabalho e o conteúdo dos excertos destacados, no intuito de ancorar algumas questões pertinentes.

Entre o título e o tema do trabalho, entre o ator e o cidadão, entre o Leviatã e a Atenas, teço então o presente texto.

Leia o trabalho na íntegra.

Referências

1 – Montes, Maria Lúcia – Poder Constituiente e Democracia in “A Constituinte em Debate” – colóquio org. por L. R. Salinas Fortes e Milton M. Nascimento, Sofia Editora, SP, 1986, p. 211

2 – Weffort, Francisco C. – “Por Que Democracia ?”- Brasiliense, SP, 1986, pp. 30 e 31

3 – Finley, M. I. – “Democracia Antiga e Moderna” – Graal, R.J., 1988, pp. 26, 27e 40.

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O presente projeto de pesquisa delineou-se a partir de questões surgidas na leitura da tese “A Força da Realidade na Clínica Freudiana” de autoria de Nelson Coelho Jr., a quem cabe, portanto, expressar nossa gratidão.

Neste trabalho, cruzando o exame das noções de realidade na obra freudiana com a reflexão sobre relatos clínicos de análises empreendidas por Freud e por ele mesmo, Nelson propõe o conceito de realidade clínica. Através de tal conceito, Nelson visa circunscrever a especificidade da situação clínica, criando um articulador teórico para a tensão entre realidade externa e realidade psíquica que permita pensar os modos pelos quais as mencionadas polaridades comparecem na dinâmica das curas.

Em seu trabalho, a construção do conceito de realidade clínica conhece uma passagem decisiva num ensaio denominado Pedro – A Realidade entre o Visível e o Invisível. Nelson aí discute o caso de Pedro, um jovem de 15 anos que se queixa de uma afecção cutânea que, em entrevista prévia, seu pai, médico, nomeara como uma “psicodermatite de fundo indubitavelmente psíquico, emocional”.

Logo na primeira ida ao consultório, suspeitando de que o analista não acredite quão sério é o que acontece em sua pele, Pedro lhe pergunta se quer vê-la, nas lesões. Nelson conta o que se segue:

Devolvo, perguntando a ele se quer me mostrar, se quer que eu veja. Ele mostra. Eu vejo. Foi difícil manter o olhar sobre seus pés e pernas. Difícil ver um corpo deformado por feridas alérgicas, semelhante a pernas e chagas à mostra por mendigos no centro de São Paulo. Algo se construía neste momento inicial de trabalho. Algo do setting, algo do binômio fala/escuta tinha sido rompido.

Em consonância com a seqüência exitosa do tratamento, Nelson vem a propor a idéia de que abrir-se ao mostrar/ver teria propiciado a mobilização e a expressão de determinações traumáticas sobre as quais Pedro não havia feito a experiência de uma fala própria, de modo que a função do analista consistiu em acolher em ato a visibilização do indizível para poder incluí-lo na dimensão da palavra.

Não obstante, detive-me no fato de que Nelson, num primeiro momento, viveu as agruras de uma contradição entre o caminho da cura – que apontava ao mostrar/ver – e os limites de uma certa concepção do setting – circunscrito ao falar/escutar.

Coloquemos assim:
– o analista percebeu que era decisivo abrir-se ao mostrar/ver;
– o analista expôs sua percepção a deformidades repulsivas;
– o analista percebeu-se como rompendo a forma canônica do setting;
– tais percepções custaram ao analista conflito e sofrimento psíquico;
– aprender com este sofrimento psíquico é fazer psicopatologia psicanalítica.

Ao utilizar a categoria da percepção, tenho em mente uma operação que, sem deixar de ter efetividade no plano cognitivo, deite raízes naquilo que Merleau-Ponty, após perquirir os processos antepredicativos de sentido originários no corpo, veio a designar por carne. Busco assim situar o processo psicanalítico de produção de sentido em um âmbito salvaguardado da soberania da consciência de si reflexiva e do paradigma iluminista que identifica os entraves da cura aos pontos cegos do analista.

Ao evocar, em conexão com a noção merleau-pontyana de percepção, a idéia de uma aprendizagem, tenho presente a concepção de Pierre Fédida, segundo o qual, na minha leitura, psicopatologia consiste em poder aprender desde dentro com a paixão, com o sofrimento. Invoco as palavras de Fédida:

(…) na tradição do poeta Ésquilo (seria interessante ler a peça Agamenon) emprega-se a expressão ‘Patei-matos’ para designar o que é pático, o que é paixão, o que é vivido. Aquilo que pode se tornar experiência. Em alemão se empregam os verbos erleben (presenciar) – erfahren (experimentar). ‘Psicopatologia’ literalmente quer dizer: um sofrimento que porta em si mesmo a possibilidade de um ensinamento interno.

Observa-se que há uma interioridade em jogo. Para que se dê um ensinamento interno, é necessário que se constitua essa dimensão de interioridade. Emprego a noção de constituição e não de existência na medida em que considero que o próprio âmbito em que ocorre a aprendizagem não é dado e sim conquistado.

Ora, constituir essa dimensão de interioridade onde o sofrimento possa tornar-se ensinamento não seria o escopo mesmo da realidade clínica?

Dessa interioridade situada no caminho entre a realidade exterior e a realidade psíquica acredito ter encontrado em Freud um recorte metapsicológico onde a percepção e o inconsciente pontilham o roteiro do tratamento psicanalítico:

Normalmente, todos os caminhos desde a percepção até o Ics. permanecem abertos e só os que partem do Ics. estão sujeitos ao bloqueio pela repressão (…) … 0 tratamento psicanalítico se baseia numa influência do Ics. a partir da direção do Cs. e pelo menos demonstra que, embora se trate de uma tarefa laboriosa, não é impossível. Os derivados do Ics. que agem como intermediários entre os dois sistemas desvendam o caminho (….) para que isto se realize.

A título de hipótese diretriz do presente projeto de pesquisa, proponho que os derivados do Ics. que agem como intermediários entre o Pcs. e o Cs. constituem o lugar metapsicológico da realidade clínica. Proponho, ainda, que a noção merleu-pontyana de reflexão sensível seja pertinente e frutífera para pensar os modos pelos quais a percepção informa a realidade clínica.

O prosseguimento da pesquisa buscará material no depoimento e nas obras de artistas como Eisenstein e Fernando Pessoa, bem como na experiência dos analistas que ousam escancarar os bastidores de seus atos.

Baixe o texto completo.

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Tese apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, como parte dos requisitos para obtenção do título de Doutor em Psicologia.

Dedicatória

Quando meu corpo, transbordado de idéias, as imobilizava, quem seria minhas mãos?

Mas porque estavas aí, estavam lá:
uma mão mantinha o mundo em suspenso
outra mão mantinha o mundo a girar.

E é assim que o trabalho te pertence, Dudu
esta tese é mais um filho em nosso amar.

Trecho da tese

Este texto tem por objetivo apresentar algumas articulações entre o relato clínico do caso de Nair e considerações clínicas, teóricas e metapsicológicas correlatas, com vistas ao exame de minha tese de doutoramento no Instituto de Psicologia da USP.

A forma final do trabalho resultou de duas direções de pesquisa que se revelaram intrinsecamente convergentes: Aquém do Espelho: Estudo Psicanalítico sobre os Fundamentos da Potência Auto-Simbólica do Sujeito, título original do projeto de tese de doutorado (1995) e subseqüentes relatórios anuais (1996 a 1999) desenvolvidos junto ao IPUSP e Psicopatologia da Percepção Clínica na Prática Psicanalítica, projeto de pesquisa desenvolvido a partir de 1996 no Laboratório de Psicopatologia Fundamental do Núcleo de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP.

A questão da gênese da potência auto-simbólica, inicialmente referido ao Caso Hermes (matéria da dissertação de mestrado, conforme detalharei na subseqüente introdução), recebeu em seguida os aportes de novas experiências clínico-institucionais, entre as quais se destaca a freqüência às supervisões junto ao Serviço de Atendimento Individual na Estrutura Familiar do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP, dirigido por Jussara Falek Brauer, idealizadora de um original dispositivo psicanalítico para a investigação e o tratamento de psicoses, cuja proficuidade heurística e terapêutica pude acompanhar (cf. trabalhos e relatório de 98).

O questionamento da teoria psicanalítica da constituição do ego e do objeto conduziu a aprofundar o estudo das teorias sobre os processos de simbolização e percepção, em vertente metapsicológica (Freud, Ferenczi) e ontológica (Espinosa, Merleau-Ponty). Nesse percurso, as contribuições teórico-clínicas de Pierre Fédida foram-se delineando como referência fundamental para pensar a simbolização a partir da problemática do autismo.

Os trabalhos de 99 ampliaram para além da psicanálise o diálogo com autores contemporâneos (Eugène Minkowski, Oliver Sacks), em cujos escritos teórico-clínicos buscamos pontos de apoio e de contraponto ao desenvolvimento da hipótese-diretriz da pesquisa, a qual mantemos e sustentamos: o sujeito constitui o objeto antes de se autoconstituir como ego.

Finalmente, o caso de Nair revelou-se como central tanto para exprimir a convergência dos caminhos de pesquisa, como para embasar a estratégia genética da exposição de seus resultados.

Baixe a tese.

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Como é possível que diferentes vertentes da psicopatologia possam dialogar, cooperando, transformando-se e enriquecendo-se reciprocamente, de modo a engendrar novos saberes e novas práticas?

Este livro permite vislumbrar a condição ética dessa interdisciplinaridade – a disposição para modificar-se à luz do outro, base para que a diversidade de especialidades transforme-se numa cooperação autenticamente pluralista e dialógica.

O leitor poderá prosseguir o diálogo ali onde os textos revelam-se como um trabalho auto-interrogativo: mais que especialista, cada autor é um curioso, pesquisador aberto às diferenças interdisciplinares porque aberto às diferenças que lhe são interiores. Afinal, em psicopatologia, a aventura do saber é também a do autoconhecimento. Adquira o livro.

Ficha técnica

Editora: Via Lettera
Autor: David Calderoni (Org.)
Ano: 2002
Edição: 1ª
ISBN: 8586932833
Número de páginas: 160

Orelhas

Caro leitor, eu sou a orelha do livro.

Diga-me: por qual meandro deseja penetrar nos labirintos da psicopatologia?

Se o seu interesse estiver voltado à história dessa disciplina, lendo adentrará com proveito o percurso de constituição das noções de doença mental, loucura e desrazão e palmilhará com espanto os caminhos pêlos quais a medicina veio a se tornar uma arte muda.

Se a sua predileção recair sobre as interfaces do bioquímico e do psíquico, ofereço na direção mente-corpo o que a psicoterapia vem buscando diante da drogadicção e, na mão inversa, um apanhado histórico dos avanços da psicofarmacologia no tratamento dos transtornos mentais.

Se o seu problema é diagnóstico, poderá trilhar muitas dimensões dessa questão na psiquiatria e, encaminhando sua interrogação aos fundamentos éticos da cura, poderá acompanhar a abertura terapêutica propiciada por diferentes reações frente ao paciente.

Se me seguiu até aqui, decerto o leitor é uma pessoa ligada à cultura. Siga as páginas. Elas o levarão a rincões da psicanálise deslindados pela bússola da arte e da religião, aportando também ao quanto esta pode favorecer a saúde mental, segundo uma perspectiva psiquiátrica que tem sido preconceituosamente desconsiderada.

Prometo que ao final da jornada o leitor escutará, multiplicadas, as indagações que ecoam no labirinto da orelha.

Psicopatologia: Psicofarmacologia, Psiquiatria, Psicanálise

Por David Calderoni

Os excelentes textos que compõem este livro foram elaborados ou reavivados tendo em vista o lançamento do Curso de Especialização em Psicopatologia NAIPPE/USP, evento que teve lugar no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da universidade de São Paulo em 27 e 28 de setembro de 2002.

Intitulado Psicopatologia: psicofarmacologia, psiquiatria, psicanálise, o evento centrou-se numa série de conferências organizadas em torno de quatro eixos temáticos: interfaces do bioquímico e do psíquico; percursos na história da psicopatologia; bases e critérios para diagnóstico e terapêutica; psicopatologia e cultura.

Dessa forma, procurou-se presentificar o espírito cooperativo e o campo de abrangência que estruturam de modo dialógico e plural o Curso de Especialização em Psicopatologia NAIPPE/USP.

Já na própria produção do evento de lançamento do Curso, tal cooperação e abrangência materializaram-se em diversas ações convergentes às quais aqui cabe prestar reconhecimento: o Prof. Dr. Francisco Lotufo Neto acolheu pronta e ecumenicamente o projeto do Curso, incorporou-se à sua equipe de coordenação e lhe franqueou a estrutura do AMBAN (Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP), onde pudemos contar com o prestimoso secretariado de Cristiane Pinheiro Lima e Luciana dos Santos; a Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, na pessoa do Digníssimo Pró-Reitor Prof. Dr. Luiz Nunes de Oliveira, destinou apoio financeiro ao evento, patenteando a percepção de que a pesquisa está no cerne de nossa proposta. A essas pessoas concretizamos nossa gratidão nessa obra coletiva que testemunha o sentido de seus esforços.

Somando-se a esses decisivos apoios, dignas de nota foram as presenças, na abertura do evento, do Prof. Dr. Braz Araújo, Coordenador Científico do NAIPPE/USP, e do Dr. Oswaldo Ferreira Leite Netto, Diretor do Serviço de Psicoterapia da FMUSP. Assim como na abertura do evento, a presença de ambos nos textos de abertura da presente publicação vem reforçar a tradição humanista da psicopatologia e atestar o reconhecimento acadêmico da USP à sua dimensão político-estratégica.

Certamente, há questões macropolíticas candentes que marcam a contemporaneidade psicopatológica e contextualizam a dimensão ética das propostas do Curso, Em nível nacional, destacam-se os debates e providências que envolvem a chamada reforma psiquiátrica, em que se jogam as questões da inclusão e exclusão social correlativas a diferentes estratégias de diagnóstico e, sobretudo, de tratamento. No plano da Organização Mundial da Saúde, a decretação da moratória para a revisão dos sistemas internacionais de classificação das doenças mentais põe em xeque os postulados de ateoricismo e de neutralidade política e axiológica na base dos critérios taxonômicos, abrindo campo à cooperação interdisciplinar para redefinição de fundamentos epistemológicos e encaminhamento de novas propostas de compreensão do sofrimento psíquico em que a perspectiva etiológica retoma sua legitimidade.

Sendo tais questões macropolíticas do interesse do Curso de Especialização em Psicopatologia NAIPPE/USP, não devemos esquecer que são os dispositivos micropolíticos cotidianos que constituem amiúde o espaço concreto onde se materializam a forma e o conteúdo dos cuidados para com a saúde mental.

Tendo isso em conta, pensamos que é na qualidade ética de cada membro de uma ampla equipe multidisciplinar que se decidem o sentido e o alcance de nossa proposta de ensino e pesquisa. Este livro permite vislumbrar essa qualidade ética – a disposição para se modificar a luz do outro, condição para que a diversidade de especialidades transforme-se numa cooperação autenticamente pluralista e dialógica.

Colaborador ou docente do Curso, mais do que especialista, cada autor é um curioso, pesquisador aberto às diferenças interdisciplinares porque aberto às diferenças que lhe são interiores. Afinal, em psicopatologia, a aventura do saber é também a do autoconhecimento.

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O aparelho auditivo de Hermes lhe teria permitido registrar as palavras da professora? Talvez não. Hermes foi parar num hospital? Não, mas passou por vários, até encontrar um onde pôde ser ouvido. E quanta coisa a mãe de Hermes me contou! Mas essas são histórias para outras palavras.

Dando a saber o que não se sabe, o psicólogo comunica o irreprodutível e o indizível. E o próprio impulso para dar nome à criança de que trata este texto nasceu da leitura do que Ernildo Stein escreveu sobre “a responsabilidade e o risco do tradutor. Ele não é apenas a ponte entre a língua-fonte e a língua-meta: é também, por excelência, o mensageiro (Hermes) que veicula o sentido”. Adquira o livro.

Apresentação – Carta ao Leitor

Este livro corresponde à minha dissertação de mestrado, apresentada numa tarde ensolarada de junho de 1994 ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Anuncio sua matéria.

Em 1986, no curso de um Programa de Trabalho na Área Psicológica junto a creches municipais de São Paulo — que incluía a intervenção nas relações institucionais e, articulado a isso, o psicodiagnóstico de crianças —, realizei o atendimento de Hermes, 5 anos, diagnosticado empiricamente por agentes de sua creche como praticamente incapaz de pensamento e de linguagem (“débil-mental e surdo”).

Tendo as providências diagnósticas sido acompanhadas de um contradiagnóstico institucional (destinado a desconstruir o diagnóstico empírico de debilidade mental e auditiva), procuro refletir sobre o processo conjunto que permitiu reverter a exclusão da criança, transformar o modo pelo qual era percebida e encaminhar um saber positivo sobre o seu psiquismo.

O leitor tem em mãos a história desse processo, ao qual veio se juntar um acontecimento digno de nota.

Ao retomar o material para publicação, evidenciou-se fortemente, mais uma vez, o fato de que a apresentação pública da dissertação foi ocasião de trabalho constitutivo do sentido do próprio caso.

Sensíveis a isso, Marlene Guirado (orientadora), Maria Luisa Sandoval Schmidt e Sérgio Cardoso, membros da banca examinadora, bem como Myriam Chinali, editora, encamparam a idéia de um posfácio contendo a transcrição da defesa.

A proposta foi a de manter o tom oral e a experiência calorosa daquela memorável e dialógica tardada, cuja força crítica confere ao texto uma contudente atualidade.

Aos membros da banca e à editora ofereço, pois, renovados agradecimentos. E, ao leitor, parceria na conversa.

São Paulo, outubro de 2004.
David Calderoni

Primeira orelha

Por Renato Mezan

Generosidade, imaginação, sensibilidade clínica: termos que bem caracterizam o livro que o leitor tem em mãos. Sensibilidade na condução das sessões e no trato com os adultos que circundam o pequeno Hermes; sensibilidade ainda na leitura arguta dos desenhos e dos testes deste garoto de cinco anos, cujo comportamento inadequado numa creche pública motivou a intervenção do psicanalista. Imaginação, no construir uma rede de referências para situar e compreender os nexos do material com o entorno institucional e social no qual ele ganha sentido.

Generosidade, ao abrir aos leitores janelas para a filosofia, para a estética e para a política, eixos que balizam a discussão propriamente metapsico-lógica da experiência de e com Hermes.

A estes traços, é preciso juntar a formulação conceitual precisa, a clareza na exposição de conceitos pouco familiares a quem vem da Psicologia acadêmica (como os emprestados ao filósofo Espinosa ou ao cientista político Guilhon Albuquerque), e uma invulgar facilidade no manejo das palavras, do seu ritmo e da sua combinação — que vem a David, com certeza, de sua experiência como poeta e compositor.

O relato, documentado com as imagens produzidas pelo menino, vai sendo assim sucessivamente trançado aos diversos níveis de reflexão: estudo do ambiente familiar e do seu potencial traumático, dimensão institucional do trabalho na creche, políticas públicas e política tout court, aspectos estéticos das imagens (úteis também no trabalho de interpretar), até chegar aos elementos filosóficos que estruturam e fundamentam o trabalho clínico.

Hermes era o deus grego das passagens, do comércio, das encruzilhadas: metáfora para os vínculos e para a circulação — e é sobre isso que David Calderoni, finalmente, tem tanto a nos ensinar. Boa leitura!

Apreciações críticas

Distinção e Louvor “pela inovação na constituição de um campo de investigação/ intervenção psicológica no âmbito institucional e pelo virtuosismo na interpretação dos elementos configurados no Caso em análise”.

Comissão Julgadora da Pós-Graduação do Instituto de Psicologia da USP, composta pela Profª. Drª. Marlene Guirado (orientadora), pelo Prof. Dr. Sérgio Cardoso e pela Profª. Drª. Maria Luísa Sandoval Schmidt

A obra apresenta complexidade teórica, originalidade e, por isso, traz contribuições importantes para o campo de pesquisa e de atuação. E o resultado final (o livro impresso) é bastante satisfatório, pois contempla plenamente todos os requisitos.

Assessores da Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo

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Este livro reúne seis escritos psicopatológicos e estético-críticos sobre obras de Caetano Veloso, Chico Buarque, Eugène Minkowski, Guilherme Messas, Jean Bergeret, Oliver Sacks, Roberto Benigni e Sigmund Freud. Adquira o livro.

Ficha técnica

Editora: Via Lettera
Autor: DAVID CALDERONI
Ano: 2006
Edição: 1ª

Entre conceitos e canções

Por Luiz Tatit

Um cancionista psicanalista não é nada improvável. O perito em canções normalmente divide sua atividade musical com outras bem distintas, tentando dar vazão a uma espécie de talento dispersivo que as especialidades, consideradas individualmente, jamais conseguem saturar. Já um psicanalista cancionista não é nada provável. Os temas de Freud são absorventes a tal ponto que, em geral, seus aficionados tendem a rever o mundo e os seres humanos à luz das perspectivas abertas pela teoria, deixando pouco tempo e espaço para outras modalidades de leitura e expressão.

Difícil saber se David Calderoni pertence ao primeiro ou ao segundo tipo de militante cultural. Só posso afirmar que, no seu caso, o cancionista precede cronologicamente o psicanalista, e que a existência de dois CDs recentes, reunindo suas composições, atestam que a atividade musical não esmoreceu em seu projeto pessoal. Por outro lado, tudo leva a crer que o psicanalista atualmente engloba o cancionista num cotidiano em que a reflexão e a prática de convívio com pacientes exigem do profissional um engajamento quase que ininterrupto.

Os textos aqui reunidos, porém, nos oferecem uma terceira via de interpretação. O psicanalista e o cancionista exercem funções complementares no pensamento de Calderoni. Ambos modulam os excessos que poderiam comprometer o tratamento dos temas abordados. O psicanalista lança mão de conceitos consagrados (como complexo de Édipo e transferência, por exemplo), ainda que devidamente revistos pelo autor, para delinear um parâmetro de avaliação dos objetos descritos e, com isso, abrandar a tendência dispersiva do enfoque artístico. O cancionista, por sua vez, não esconde certa “aliança” com o objeto analisado, que pode ser o discurso de um paciente, uma canção de Caetano Veloso ou o próprio compositor. Atenua, assim, a tendência centralizadora da ciência, aquela que nos dá a impressão de que o esforço para se comprovar a hipótese inicial se sobrepõe à observação mais cuidadosa do fenômeno estudado.

Creio mesmo que é o autor-cancionista que faz desaparecer dos escritos em pauta a sombra do psicanalista-detetive, tão comum nos seguidores de Freud, deixando apenas o investigador paciente que quer chegar a algum resultado com a ajuda do próprio investigado.

Assim, no estudo intitulado “Édipo e transferência a partir de Dora: um percurso em Freud”, dedicado às diversas etapas da carreira em que o pai da psicanálise focaliza a questão edipiana e o mecanismo da transferência, David Calderoni identifica, em cada uma delas, uma tensão entre os motivos da razão, no mais das vezes associados ao gesto de dominação e dissecação (pelo saber) dos impulsos primitivos e das manifestações emocionais (Édipo, transferência ou mesmo obras de arte) e os motivos do afeto que podem produzir o arrebatamento, a surpresa e o trabalho artístico, mas também o amor doentio e a neurose. Segundo o autor, só em fases afins ao fazer artístico, tal como por ocasião da análise de O Rei Lear, Freud consegue tirar proveito teórico dessa tensão entre os dois motivos sem culminar com o recalque das figuras operantes do afeto.

E é justamente iluminando essas últimas figuras que o autor passa à descrição do universo poético de Chico Buarque (“A pedra e a perda – feminino e temporalidade: notas a partir da escuta de ‘Você, você – uma canção edipiana’”) e Caetano Veloso (“O silêncio à luz de Caetano”), posicionando-se rente às letras examinadas. Sua estratégia de escrita é a constante indagação sobre os possíveis conteúdos do texto, lançada em meio às citações, de modo que perguntas e respostas emanem dos próprios versos. É a forma que encontra de conduzir seu raciocínio sem dispensar a cumplicidade dos compositores. Calderoni ainda aceita, nos dois textos, o temível desafio de aproximar obra e biografia dos letristas. No que se refere a Caetano, nada mais natural na medida em que ele próprio reconhece suas canções como autobiográficas. Mas Chico, como se sabe, considera seu universo imaginário artístico completamente apartado de vivência pessoal. Pode-se dizer que nada disso importa quando a análise beira o texto analisado e os depoimentos concedidos diretamente pelos artistas. Cabe ao psicanalista articular esses dados segundo os seus princípios teóricos, mantendo o cuidado e, muitas vezes, a dúvida em relação às próprias conclusões. Ambas as posturas fazem parte integrante deste livro.

A análise de “Você, você” pelo prisma edipiano sugerido no título da canção trouxe à tona a continuidade e a descontinuidade, aquelas que selam a relação entre os personagens narrativos, como matrizes de um tempo cujo fluxo ora queremos apressar para reduzir nossa espera, ora queremos interromper para preservar os vínculos primordiais. O enunciador da composição enxerga a mulher pelos olhos da criança que pressente, na despedida noturna da mãe, uma ameaça ao seu profundo elo amoroso (edipiano, segundo Chico). Os aspectos contínuo ou descontínuo do vínculo surgem então associados aos mesmos aspectos referentes à temporalidade.

O capítulo sobre Caetano é mais abrangente – e ambicioso. Contando com um livro autobiográfico (“Verdade Tropical”) para cotejar com letras que, de certo modo, possuem esse mesmo caráter, Calderoni examina o silêncio, cuja configuração poética no repertório do compositor se exprime como “a voz de uma luz”, e seu valor na prática psicanalítica. Nesse estudo, o recuo teórico, que em geral afasta o pesquisador de seu objeto de estudo, é praticamente eliminado. É como se o psicanalista entrasse em fusão com o artista. Difícil distinguir quem é sujeito e quem é objeto, pois a alternância é incessante. Mesmo as descobertas que só podem vir do autor deste volume parecem emergir dos textos do compositor, uma vez que só depreendemos o seu sentido a partir das aproximações – às vezes paralelas, às vezes seqüenciais – de trechos sugeridas pelo primeiro.

Entre os bons momentos do capítulo, Calderoni ainda arrisca uma hipótese de fato instigante para explicar os efeitos da música, linguagem que se define por criar internamente suas próprias referências, no âmago do sujeito. O seu poder poético facilitaria o reconhecimento dos conteúdos que transitam livremente entre as partes do universo subjetivo, bem como entre as partes e o todo desse mesmo universo. É bem verdade que o célebre conceito de função poética lançado por R. Jakobson já vislumbrava essas conexões entre partes da obra. No entanto, o lingüista jamais respondeu à indagação que hoje freqüenta os tratados de semiótica e que está presente no texto em exame: como se relacionam as saliências locais de uma obra de arte com o sentido global coextensivo à obra como um todo? A resposta a essa questão talvez ajudasse a explicar o fato de a música favorecer o desimpedimento das conexões “partes-todo” também no interior do sujeito.

Esses ensaios de Calderoni ainda se completam com um pequeno texto dedicado ao filme A Vida é Bela, de Roberto Benigni, escrito de maneira lírica e envolvida, e com estudos de ordem clínica e metodológica a respeito dos autores Bergeret, Minkowski, Sacks e Messas. Também nesses casos, a originalidade dos pontos de vista adotados certamente terá forte repercussão entre estudiosos do tema, psicanalistas, terapeutas e interessados de modo geral.

Contracapa

Por Cristiano Novaes de Rezende

Todas as coisas notáveis são tão difíceis quanto raras.

É com esta conhecida frase que Espinosa encerra sua obra magna, a Ética, reconhecendo que a via por ela aberta é árdua e exigente de grande labor. Entretanto, pouco antes desta conclusão, o filósofo insistira: essa via “pode ser encontrada e percorrida”.

Não é sem propósito evocar aqui, diante destes ensaios para uma ciência do singular, o célebre filósofo holandês do século XVII. Afinal, o notável a que ele se refere não é senão viver conforme certo modo de percepção, caracterizado justamente como “conhecimento das coisas singulares”, muito preferível ao “conhecimento universal”, especialmente no que concerne à constituição e à expressão de um psiquismo tão saudável quanto livre e de uma vida afetiva tão consistente quanto rica e complexa. Mas, sobretudo, tal evocação justifica-se porque Espi­­­­nosa qualifica expressamente esse gênero de conhecimento como scientia, exigindo que o percurso do pensamento pelo singular se diferencie de uma percepção que vaga por entre encontros fortuitos e associações acidentais, mas também, em contrapartida, que a própria cientificidade se diferencie da mera capacidade de administração classificatória do mundo – tecnicamente exitosa, mas governada por universais abstratos que tendem a encobrir e usurpar o lugar das coisas singulares na natureza.

É por certo desafiadora a expressão “ciência do singular”. Na antiguidade, com Aristóteles, a ciência fora caracterizada como conhecimento do universal. E contemporaneamente, na formulação paradigmática de Merleau-Ponty, a ciência foi dita “manipular as coisas sem habitá-las”. Conhecedor destes referenciais teóricos, David Calderoni procura trilhar, antes, uma via fortemente mobilizada pela leitura de Espinosa: ao invés de ceder o traço da cientificidade a esse gênero de conhecimento determinado pela lida externa com o objeto, o autor nos convida a uma sorte de correção intelectual e nos faz questionar se não é apenas uma ciência do singular que pode ser estimada como ciência propriamente dita. Ao invés de se constituir como olhar de sobrevôo em oposição ao olhar imanente do artista, o trabalho científico aqui empreendido compartilha com a criação artística a capacidade de proporcionar um modo peculiar de fruição e união com os objetos tratados, oferecendo ao leitor, simultaneamente, a clareza dos conceitos bem ordenados e a experiência afetiva de uma prazerosa compreensão.

Assim, ao abarcar conjuntamente escritos psicopatológicos e estético-críticos, a unidade destes ensaios não se fragmenta em esforços díspares nem amalgama inegáveis diferenças, mantendo-se coesa na exata medida em que revela, em cada caso, a singularidade de seus objetos e da abordagem que os acolhe. Trata-se, pois, de uma unidade tão mais consistente quanto menos se faz homogênea e indiferenciada. E nisso ressalta o caráter de um pensamento livre em sentido espinosano, isto é, “apto para a multiplicidade simultânea”. Havendo tomado a exigente via aberta por Espinosa, estes ensaios dão testemunho de sua viabilidade, permitindo compreender que uma ciência do singular não há de realizar-se como mais um cânone abstrato, novo acervo de modelos universais, nem como híbrido paradoxal de determinações contraditórias, mas sim como pensamento singular porque potente para a unidade do diverso.

 

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Estas páginas arregimentam cuidadores da vida humana que tomam posição em fronteiras de pensamento da psiquiatria, da terapia ocupacional, da psicanálise e dos estudos espinosanos.

Trabalhando para promover e compartilhar a saúde do corpo e a liberdade da alma, os autores produzem pesquisas ambientadas nas interfaces da epidemiologia, da filosofia, das artes e da crítica social.

Os textos demonstram e oferecem constantes reflexões sobre os fundamentos epistemológicos e históricos de disciplinas voltadas à compreensão e à superação de mal-estares e padecimentos individuais e coletivos.

Uma transdisciplinaridade autocrítica desenvolve-se assim nas abordagens que chegam às suas mãos, leitor – e é em seu diálogo interior, trabalho de leitura, que as propostas aqui consteladas lançam-se à sua sorte. Pertencerão à ordem do dia? Se os presentes estudos revelarem-se elementos práticos para enfrentar sofrimentos fundamentais, renascerão efetivamente como Clínicas de Hoje. Adquira o livro.

Ficha técnica

Editora: Via Lettera
Autor: David Calderoni (Org.)
Ano: 2006
Edição: 1ª
ISBN: 8576360314
Número de páginas: 176

Apresentação

Por David Calderoni

Este livro reúne trabalhos apresentados ou inspirados no evento Psicopatologia: Clínicas de Hoje, título e tema geral do Segundo Ciclo Anual de Conferências e Debates do Curso de Psicopatologia NAIPPE/USP, ocorrido em 12 e 13 de dezembro de 2003 no Anfiteatro do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

O laço essencial que vincula o Curso de Psicopatologia NAIPPE/USP com as clínicas de hoje, tema do evento – e deste livro -, radica no que faz do Curso um projeto singular e complexo.

Trata-se da proposta de fundamentar e estabelecer um campo de diálogo entre a psicofarmacologia, a psiquiatria e a psicanálise sobre as formas de diagnóstico e tratamento do sofrimento psíquico, a partir da história da Psicopatologia e da sua contemporaneidade.

Além do pressuposto ético que consiste na disposição para modificar-se ã luz do outro, quais seriam as condições epistemológicas para um diálogo entre práticas e saberes tão diversos em suas linguagens, métodos e técnicas? E em que tal diálogo teria a ver com as clínicas de hoje?

Postulamos dois eixos para a articulação intercientífica das diversas vertentes da psicopatologia: a história e a clínica.

Permitindo repensar uma clivagem que nem sempre favorece os sujeitos que buscam ajuda profissional para estabelecer ou restabelecer o seu bem-estar físico/psíquico, o estudo da história da psicopatologia leva a reabitar, em estado nascente, lógicas e valores, cenários e personagens, atos e discursos em cujo contexto uma medicina do corpo separou-se de uma Medicina da alma.

Ora, na medida em que estabelecer ou restabelecer o bem-estar físico/psíquico de sujeitos sofrentes constitui a razão de ser da psicofarmacologia, da psiquiatria e da psicanálise, é justo pensar que essas vertentes da psicopatologia encontram um solo comum inconteste na clínica, isto é, nas práticas de tratamento.

Nas interfaces da epidemiologia, da filosofia, das artes, da crítica social e de uma plêiade de invenções instituintes, fronteiras de pensamento perpassadas de amor, sangue, suor e sonho chegam às suas mãos, leitor -e é em seu diálogo interior, trabalho de leitura, que as propostas e os estudos aqui reunidos lançam-se à sua sorte. Pertencerão à ordem do dia? Se os presentes escritos revelarem-se elementos práticos para enfrentar sofrimentos fundamentais, renascerão efetivamente como clínicas de hoje.

Orelhas

Por David Calderoni

Num feliz encontro de rigor e pluralidade, esta coletânea de idéias e ações amplamente úteis no campo das intervenções diagnosticas e terapêuticas se distingue pela coexistência do notável empenho na busca de fundamentos teórico-práticos de cada um dos ensaios que a compõem e pela abertura dialógica propiciada em suas abordagens singulares.

No primeiro artigo, procuro mostrar que a perspectiva científica de Aristóteles está entranhada na estrutura do procedimento diagnóstico contemporâneo. Em contraste a essa postura dominante, ressalto implicações metodológicas e ontológicas da adoção da perspectiva potentemente inovadora do conceito de singularidade de Espinosa.

E é Laurent Bove que apresenta, justamente através da teoria espinosana dos afetos e paixões, uma reflexão preciosa sobre as condições para que a atividade supere a passividade, propiciando o desenvolvimento de uma existência intelectual e ética estruturada na força do amor de si equilibrado.

A artista plástica Elisa Bracher transmite desde o seu ateliê-laboratório percursos sensíveis, firmes e eficazes rumo à arquitetura de um tempo-lugar de reconstrução para uma matéria humana mais-que-dolorosa.

André Malbergier, por sua vez, circunscreve a AIDS mediante dados epidemiológicos, psicopatológicos e neurológicos, permitindo a compreensão dos quadrantes psicossociais do uso de drogas injetáveis, das tentativas de suicídio e das reações do paciente quando comunicado da sorologia positiva para o HIV.

Num giro em direção à história da cultura, Noemi Moritz Kon enriquece as clínicas de hoje mostrando o quanto estão perpassadas – saibam ou não – pelo diálogo entre literatura e psicanálise. Como paradigma de equilíbrio entre a razão e o que a precede ou supera, a autora convida o clínico a sustentar-se como sujeito da incerteza em prol do alargamento do espaço de autonomia de quem o procura.

Renovando a tradição fenômeno-estrutural, Guilherme Messas imprime sua peculiar perspectiva psicopatológica pela consideração da estrutura temporal como determinante fundamental do diagnóstico e da psicofarmacoterapia num caso de constelação alcoólica.

Tratando de um dispositivo grupal em que a invenção e a intervenção coincidem na interrogação do que favorece o nascimento de uma forma, Paula Francisquetti nos apresenta sua experiência clínica e dramatúrgica com seus pacientes e parceiros de palco.

Nayra Ganhito narra a singular história institucional de um sujeito desprovido de passaporte afetivo de inclusão e a reengenharia clínica para a reversão desse quadro.

Instrumentada por Winnícott, Tânia Vaisberg propõe a travessia das agonias impensáveis e do sem-sentido do mundo, apresentando materialidades mediadoras que ampliam efetivamente os recursos de tratamento de pacientes em que grita mais a problemática não neurótica.

Tales Ab’Sáber propõe uma prática psicanalítica dialética em que, a contrapelo das pautas dominantes, poesia e pensamento, acolhidos desde o infantil, não se excluem nas relações sociais fundantes do humano.

Solange Tedesco e Flávia Liberman apresentam a terapia ocupacional como uma clínica do investimento do capital de mutualidade que torna as relações humanas relações e humanas, na medida mesma em que possibilitam a observação e a realização de múltiplas formas de engendramento entre o fazer e o conhecer.

Desejamos que a experiência de leitura constitua lances no interjogo das práticas clínicas tomadas como práticas da saúde, da liberdade e, vale dizer, da felicidade.

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Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão Universitária instituído pela Resolução USP 5817, de 17.12.2009 (D.O.E. 19.12.2009)

Núcleo de Psicopatologia, Políticas Públicas de Saúde Mental e Ações Comunicativas em Saúde Pública

Nupsi é um núcleo universitário para interação de invenções democráticas, concebidas como maneiras criativas e solidárias de desenvolver autonomia e cooperação.

David no Nupsi

– Invenções Democráticas
– Carta de Princípios
– Projeto Quilombo Livre

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I Colóquio Internacional NUPSI / USP – VII Colóquio de Psicopatologia e Saúde Pública / USP : Invenções Democráticas em Interação.

– Data: 8, 9 e 10 de abril 2011
– Local: Auditório João Yunes e Auditório Paula Souza da Faculdade de Saúde Pública / USP
– Título da palestra: Invenções Democráticas em Ação
– Título da palestra: Roda de Conversa : Sustentabilidade do Matriciamento na Saúde Mental Pública

IV Colóquio de Psicopatologia e Saúde Pública – O Direito e a Psicopatologia para a Saúde Pública – Estratégias Participativas na Educação no Trabalho e na Justiça

– Data: 26, 27 e 28 de junho de 2009
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Primeiro Ciclo de Conferências de 2008. A Estratégia das Redes e dos Dialógos na Saúde Coletiva – Articulando Invenções Democráticas

– Data: 29 de novembro de 2008
– Local: Auditório João Yunes – Faculdade de Saúde Pública / USP
– Título da palestra: As Práticas Clínicas Democráticas como Modos de Cuidado Singular do Singular Voltados a Autonomia e Cooperação

Saúde Mental Coletiva CVR África do Sul

– Data: 20 de junho de 2007
– Local: Anfiteatro Paula Souza / Faculdade de Saúde Pública / USP
– Título da palestra: Justiça Restaurativa e Cultura de Paz

Ciclo Anual de Conferências e Debates Psicopatologia : Clínica e Política

– Data: 01 e 02 de dezembro de 2006
– Local: Auditório Paula Souza da Faculdade de Saúde Pública / USP
– Título da palestra: Abertura do Evento : Associações livres entre Psicopatologia e Saúde Mental Pública.
– Lançamento do Livro : Psicopatologia : Clínicas de Hoje ( textos do III Ciclo de Debates do Curso de Psicopatologia NAIPPE/USP de 2004 )

III Evento do Ciclo Saúde Mental Coletiva de 2006

– Data: 25 de agosto de 2006
– Local: Auditório Paula Souza da Faculdade de Saúde Pública / USP
– Título da palestra: A Psicopatologia e o Trabalho Multidisciplinar em Saúde Mental Pública

III Ciclo Anual de Conferências e Debates : Neurociências, Psicanálise e Psiquiatria: Inconsciente, Sonhos e Sexualidade.

– Data: 19 e 20 novembro de 2004
– Local: Anfiteatro do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina / USP
– Título da palestra: Abertura
– Título da palestra: Inconsciente

Abertura do II Ciclo Anual de Conferências e Debates do Curso de Especialização em Psicopatologia – Psicopatologia: Clínicas de Hoje

– Data: 12 e 13 de dezembro de 2003
– Local: Anfiteatro do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
– Título da palestra: Clínicas em diálogo

Evento de Lançamento do Curso de Psicopatologia

– Data: 27 e 28 de setembro de 2002
– Local: Anfiteatro do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina / USP
– Título da palestra: Abertura
– Título da palestra: Bases e Critérios para Diagnóstico e Terapêutica

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