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Sou o caçula de três filhos de uma família judáica, com pai grego sefardim combatente da Segunda Guerra e mãe lituana ashkenazim imigrada nos primeiros tempos da Revolução Russa : “filho de safadinho com esquisitinha”, no traduzir brincalhão do sábio e saudoso Isaias Mehlson.

Insuspeitada à primeira vista, na anedota de Isaias reconheço uma profundidade que leva à estrutura dinâmica do meu capital simbólico originário.

A diversidade de origens de meus pais fez com que crescessem ambientados em diferentes dialetos judaicos, sendo o dela o idish (derivado de um alemão arcaico simplificado) e o dele o ladino (derivado do antigo espanhol e, em menor proporção, do que viria a ser o português).

Diferiam também em outros idiomas formantes: enquanto minha mãe fora familiarizada com o russo, o polonês (vindo da babá) e o alemão, meu pai falava o grego, o turco (vindo da babá) e algumas línguas eslavas (mas do russo sabia escassos jargões), às quais se justapuseram no campo de concentração o italiano e o francês.

 

Em Barão Hirsh, colônia agrícola do interior do Rio Grande do Sul onde foram acolhidos no primeiro quartel do século XX os imigrantes judeus provenientes da diáspora russa, minha mãe chegou a ser professora de hebraico, do qual o meu pai, em contraste, conhecia basicamente o suficiente para as rezas.

Em meio a esse desencontrado poliglotismo, as paredes da casa filtravam, não raro, as vozes de meus pais cantarolando melodias muito peculiares e muito díspares, mesmo quando havia alguma letra extravasada num português sempre muito modalizado (lembro da alegria absorta de meu pai entoando um refrão de Roberto Carlos: iô ti aaamu, iô ti aaamu, iô ti aaamu…).

Em 1997, enquanto minha mãe preparava o almoço de domingo, levei meu pai e meus irmãos José e Sabetai ao estúdio onde gravava o meu CD Viação, registrando com suas cantorias e conversas a miscelânea linguística e musical em que cresci.

Tal registro se encontra em A Marcha de Moisés , canção inspirada na vida de meu pai composta em parceria com Sabetai, meu irmão primogênito (termo que no ladino corresponde a El Bechor, conotando na cultura judaica uma forma dignitária de tratamento. Anos depois, ao escutar passos que indicavam a sua visita, meu pai exclamaria de modo comovido à minha mãe, sem que minha presença em nada o constrangesse: – Querida, chegou o nosso filho principal!).

Os campos de autoridade e as funções familiares da mulher e do homem tampouco se harmonizavam nos costumes a que meus pais foram habituados, meu pai esperando submissão em campos onde minha mãe reivindicava majestade. Não só dentro de casa, onde as disputas recaiam sobre a educação dos filhos: na pequena loja comercial que foram construindo com enorme esforço, era em princípio inadmissível aos olhos de meu pai que sua esposa encabeçasse negociações com fornecedores, mesmo quando envolvessem conhecimentos da moda feminina. Donde os numerosos conflitos e a necessidade de buscar consensos, estabelecendo margens de tolerância e concessão no processo de criar novas convenções para viabilizar o progresso da vida em comum. A constante observação e participação em processos mediacionais significaram para os filhos experiências micropolíticas sumamente instrutivas, onde alargar o campo do diálogo, propor pactos inventivos, refazer as pazes e encontrar a paz era muito precioso e dava muito trabalho.

A multissecular diáspora que tende a semear nos judeus uma unicidade paradoxalmente plural e estrangeira, tornada particularmente complexa em minha noticiada natividade intercultural, eu a reconheço em meus modos e motivos de produção simbólica. Com efeito, penso que um imperativo de elaborar as tensões internas dessa heterogeneidade originária sem uniformizar os ricos contrastes de suas vertentes constitutivas fez-se presente em minhas atividades instituintes. Donde, nos quadros do meu site, eu julgar pertinente a evocação desse percurso reflexivo, pois, enquanto num currículo se trata de arrolar atos (no sentido de ações consumadas), encaro o memorial como ocasião de retomar e explicitar as experiências formadoras da singularidade biográfica e autoral que os engendrou.

Nasci em 7 de fevereiro de 1958 na Maternidade de São Paulo, cidade em que cursei o pré-primário no Atheneu Lacerda Ortiz (1962-64), situado no bairro de Indianópolis, onde habitei a maior parte da minha vida.

A primeira infância foi comunitária, minha rua era nossa, os dias eram jogos, brincadeiras, festas. E quando ocorreu o grave crime do afanamento de craques de botão, lembro que as responsabilidades e reparações foram estabelecidas por um tribunal infanto-juvenil conduzido com enorme seriedade. Foi no sobrado da Rua Jamaris que televimos os festivais da Record em grande família e com torcidas várias.

A primeira perda significativa que recordo ocorreu aos sete anos, quando me mudei da Jamaris para a Avenida Ibirapuera, onde a rua de terra era deserta, os trilhos dos bondes eram amurados por pedregulhos, não havia vizinhança amiga e os campeonatos de botão ficaram restritos aos irmãos.

Aferrei-me às lições de casa, formando-me em primeiro lugar no curso primário freqüentado entre 1965 e 1968 no Instituto de Ensino Tabajara “que entra burro e sai arara”, segundo a gurizada que caçoava do Seu Pascoal, o diretor-proprietário, sempre orgulhoso por sua escola. Eu não participava dessas coisas; a rebeldia contra a autoridade me encontraria no desencontro inicial com a música.

Por essa época, diante das obras que erguiam o Shopping Ibirapuera, fui encaminhado a uma curta temporada de aulas burocráticas de piano com Dona Laura. A breve experiência teve efeito prolongado. Apenas como autodidata retomaria a música com o dobro da idade, aos 14 anos; adolescendo sozinho em meu quarto por horas a fio com o violão, inventava cadências de intrincados acordes que não tinha suficiência técnica para executar. À medida que as horas iam se tornando meses e anos, os dedilhados tateantes viravam composições emersas de uma poética constante, que procurava acentuar o discurso harmônico como modulador afetivo da relação entre letra e melodia – o que vem se dando até hoje.

Pouco antes, aos 13 anos, numa espécie de festival de versos com os manos Sabetai e José, escrevi a primeira safra de poemas, da qual re-colho um, intitulado Marginalização congrapraçada: A massa gargalhou na praça / fazendo que a graça vencesse a desgraça. // E o praça que a graça não tinha / mas que estava na praça / fez da desgraça / uma coisa vizinha: / não estava presente, / muito menos ausente;/ estava, sim, latente n’alma sofrida / que a vida e o nada a ela tudo confundem.

A angústia figurada no poema é contemporânea da minha primeira experiência de psicoterapia, onde recebi os bons tratos de uma pessoa finíssima, a quem reencontraria como mãe de Carla, querida amiga de curso colegial, e como professora na graduação em psicologia na USP. Nas páginas preliminares de O Caso Hermes, a ela destinei a seguinte dedicatória: Como eu dançasse com a sombra uma ciranda, volta e meia transpuseste muralhas para trocarmos as palavras pelos olhos. A carne do mundo entretém tua figura erguida. E digo teu nome por inteiro para inscrever este trabalho em tua memória RACHEL LÉA ROSENBERG.

Aos 14, defendi a canção Medalha num festival de música, experimentando uma situação paradoxal quando, nas finais de um certame em que se competia por prêmios, o público entoou em coro comigo o refrão Medalhas não quero / São mero cachê / Das minhas batalhas / Eu sei o porquê .

Entre 15 e 16 anos, enveredei com crescente prazer pela leitura de uma série de ensaios e conferências do filósofo Martin Heidegger editados pela Livraria Duas Cidades: Sobre a Essência do Fundamento; A Determinação do Ser do Ente segundo Leibniz; Hegel e os Gregos; Que é metafísica?; Que é Isto – A Filosofia?; Identidade e Diferença; Sobre a Essência da Verdade – A Tese de Kant Sobre o Ser. Entregando-me ao sabor do jogo de idéias e imagens, percebi que o pensamento filosófico e o pensamento poético mudam de caráter conforme possam ou não andar juntos. Testemunhando na lonjura do eco a força da primeira leitura, utilizaria a relação entre verdade e beleza tematizada por Heidegger no ensaio Hegel e os Gregos como crivo interpretativo do meu trabalho Édipo e Transferência a partir de Dora: um percurso em Freud (publicado em 1992, aos 34 anos). Diria que na relação entre ética e estética se encontra o motivo operante predileto na eleição dos temas da minha produção científica e artística.

De 1973 a 1975, fiz o Curso Colegial no Colégio Equipe, entremeado por uma estadia semestral na cidade de Bellevue, situada no Estado norte-americano de Washington, onde realizei estudos e obtive diplomação na Interlake High School (no final do primeiro semestre de 1975).

Lá, empreendi leituras marcantes (independentes da High School, cuja biblioteca, é preciso dizer, me emprestou os livros) de One Dimensional Man e Reason and Revolution, de Herbert Marcuse, concomitantes ao fim da guerra do Vietnã.

Operando o meu primeiro contato com o ideário da crítica da razão instrumental da Escola de Frankfurt, integrada por Marcuse, essas leituras foram realizadas a contrapelo das pressões de minha “família americana” (viajei por meio de um programa de intercâmbio), a qual me criticava por me considerar “socialistically inclined”.

O mais impressionante da minha experiência americana foi, em correlação ao que dizia Marcuse sobre a sociedade totalmente administrada, acompanhar minha família repetindo as manchetes do Seattle Times, malgrado as guinadas inconsistentes: uma semana antes da desistência da guerra do Vietnã, o jornal insistia em algo como “a América não abandonará o Sudeste Asiático ao comunismo”. Pouco depois, em 30 de abril de 1975, quando foi decretado o fim da guerra (para os Americanos), a primeira página do Seattle Times estampava (disso me lembro com precisão): “AN ERA OF INNOCENCE ENDS FOR AMERICA” – e a família, de gente sadia, sem nenhum problema mental aparente, mudou o discurso da água para o vinho e fez coro à referida manchete e à matéria conexa, repetindo formulações tais como “não deveríamos querer cuidar do bem do mundo todo”, “vamos nos concentrar nos nossos problemas internos” etc etc. Comprovei pela primeira vez a possibilidade da existência de uma gigantesca máquina de propaganda ideológica situada entre o Estado e a sociedade e a sua inacreditável eficácia numa massiva marionetização mental. Isso diferia muito do papel da Rede Globo no Brasil dos anos de chumbo e além? A meu ver, a adesão aqui não veio a ser tão mecânica, nem a paralisação da inteligência tão integral; porém, isso pode ser ilusão de quem não tem a distância crítica possibilitada pela perspectiva do estrangeiro.

Nos Estados Unidos, fiz amizade com alguns párias, dentre os quais o filho de um presidiário e um professor de português, militante de partido trotskista e do movimento gay. Por viajar com ele, meu coetâneo irmão americano insinuou que eu era homossexual… – o que, naquele contexto, tinha o peso de um anátema. Fora Nova York, Boston e alguns outros rincões cosmopolitas, o que é a democracia na sociedade americana? A questão permanece aberta para mim.

Voltando, o Equipe foi fundamental para a minha poesia. Tive oportunidade de desenvolvê-la nas aulas de redação do caríssimo professor Gilson Rampazzo que, com toda a paciência do mundo, me acolhia tardes seguidas para discutir os critérios de nota (graduados em conceitos de A a E) em sua sala, situada num elevado ex-claustro de freiras. Gilson me ensinou muitos parâmetros críticos e me chamou para ler vários de meus poemas em voz alta para a classe, assim como chamava outros colegas, propiciando o entreconhecimento de variados e singularmente excelentes modos de versejar, expostos a seguir para todas as turmas no A+, prestigiado e prestigioso jornalzinho de poesia que nós mesmos rodávamos no mimeógrafo. E assim, com poesia, resistíamos à miséria da cultura escolar predominante (e à miséria da cultura global), encetada pela ditadura.

O descalabro da escola pública, sobretudo depois do AI-5 baixado em 68, eu bem a provei durante o ginásio no Instituto de Educação Estadual Professor Alberto Levy (1969-72), do qual estava me esquecendo, talvez porque me custa rever sobre o canto orfeônico a sombra de bandeiras hasteadas militarmente. Tino, Joel, Marco Antonio, desconheço o paradeiro desses amigos da classe não-mista, não sinta, não vista, não minta, não inventa, imperativos esgarçados num tempo em que a lição tornou-se dever de casa, a que não desejo voltar. No mesmo espaço, outra foi a experiência do meu irmão mais velho, que uma vez me acudiu, escrevendo uma justificativa ao diretor, que havia me advertido por eu ter ido às aulas sem estar “convenientemente calçado”. Nascido oito anos e tanto antes de mim, enquanto eu concluía o Primário, Sabetai passava do Ginasial ao Clássico de então, esbanjando seu gosto por estudar matérias realmente importantes no Levy – latim, por exemplo, por cujo domínio tornou-se exímio identificador de funções sintáticas, e ainda por cima teve como professora de filosofia uma bela e jovem senhora de vinte e poucos anos, chamada Marilena Chaui.

Já no Colegial do Equipe (1973-75) vim a conhecer André Singer, amigo desta época, que felizmente havia voltado do Chile antes do golpe de Pinochet. Além de Cortázar, de política e de história (especialmente da Revolução Russa), André me falou muito – e muito bem – de Araçá Azul, de Caetano Veloso, reputado como um dos discos brasileiros com maior índice de devolução. Devo, portanto, à fineza e independência do julgamento estético de André a apresentação de Caetano, que quase trinta anos depois me telefonaria e se encontraria comigo em função de um longo ensaio (O Silêncio à luz de Caetano) que escrevi sobre a sua vida e obra. André me diria décadas depois que fui eu que lhe apresentei Carlos Drummond de Andrade. Eu só me lembro que, além de grandes autores, comentávamos com freqüência os poemas um do outro. É preciso também dizer que foi André quem me introduziu a Wilhelm Reich e a seu livro A Revolução Sexual, que revelarei adiante o quão decisivo foi para meus caminhos.

Quando eu voltei dos Estados Unidos, André me convidou a participar como ator e autor da trilha sonora do seu curta-metragem O Último Roque no Equipe (1975). A canção Último Roque, que compus para o filme, também se encontra no meu CD Viação, em que se ouvem nos backing vocals as vozes de Mario Fuks e Cleusa Pavan, colegas do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

Foi freqüentando o apartamento de André que um dia vi um senhor muito simpático adentrar o recinto em que conversávamos para pegar uma caneta tinteiro, com a qual manuscreveu uma dedicatória, depois impressa num de seus muitos livros: “Para Vinícius e os demais, que compartilharam comigo as agruras de ser suspeito.” Nas páginas preliminares do Curso de Introdução à Economia Política, Paul Singer assim se referia aos sofrimentos infligidos pela polícia política da ditadura, comungados com Vinícius Caldeira Brandt e outros companheiros nos meados dos anos 70. Mas o conhecimento das idéias desse livro comparativo e crítico ainda estava por vir.

Dentre as vivências de educação democrática no Equipe, evoco um debate com o caro e excelente professor Antonio Pedro (Tota), que ensinava História. Apoiando-se em Marx, Tota ensinava que a infra-estrutura econômica determina a super-estrutura ideológica e política. Eu, questionando o determinismo econômico estrito, lembrava do argumento de Reich (exposto em sua obra A Revolução Sexual, também apoiada em Marx), acerca da “retroação da ideologia sobre a base”.

Na passagem entre 1975 e 76, o livro de Reich foi decisivo para que eu fosse prestar o exame vestibular de Psicologia e não o de Física, estando inscrito em ambos (tirava 5 em Física quando a prova envolvia cálculo e 10 quando não envolvia). Pendendo para a encruzilhada das minhas preocupações políticas, pensei também em cursar Ciências Sociais, mas A Revolução Sexual me conquistou para a Psicologia: arrebatou-me nesse livro a forma pela qual Reich foi rastreando o processo de estalinização da revolução soviética mediante o acompanhamento do processo de reintrodução, na sociedade, da moral sexual repressiva e do ideal normativo do casamento monogâmico indissolúvel. Tal chave interpretativa conferia para mim uma enorme concretude teórica à análise dos movimentos ideológicos, baixando-a ao solo mesmo da vida amorosa e mostrando quão efetiva e libertária poderia ser uma psicanálise do coletivo.

Assistindo em Brasília uma exposição de Paul Singer na 28a Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, tal perspectiva de uma psicanálise do coletivo encontrou um elemento teórico que em longo prazo se revelou de um extraordinário valor auto-analítico, heurístico e prático. Desenvolvida por Paul Singer a partir de Rosa Luxemburg, e desdobrando-se em sua obra até desenvolvimentos realizados em Uma utopia militante. Repensando o socialismo (publicação de 1998), trata-se da idéia de que a formação social capitalista comporta diversos modos de produção (o m. p. cooperativo, o m. p. simples de mercadorias, o m. p. familiar, o m. p. público, o m. p. capitalista…), sendo que este último dá nome à formação social não por ser o único modo de produção, mas sim o predominante – sem que isto torne para este os outros modos de produção dispensáveis (ao contrário, sem o m. p. familiar, p. ex., o m. p. capitalista não teria como reproduzir a força de trabalho e o exército industrial de reserva, assim como sem o m. p. público não teria como garantir os serviços de manutenção biológica dos trabalhadores, e assim por diante). Fenômenos migratórios, como o da retirada da seca, podem ter sua dinâmica sócio-econômica compreendida e interferida através da idéia do deslocamento populacional de um a outro modo de produção.

Sobre o alcance auto-analítico do paradigma de Singer, posso dizer que a um só tempo ilumina e fornece parâmetro equilibrante das tensões entre o caráter aberto do comércio mediterrâneo e o caráter estamental de feudo fechado, próprio dos fazendeiros lituanos, correspondentes respectivamente às linhagens paterna e materna da minha ancestralidade.

O alcance heurístico do paradigma de Singer levou à desmontagem dos maniqueismos totalitários e evolucionistas que erigem o socialismo como um bem absoluto posterior ao capitalismo, quando na verdade o socialismo, sob a forma econômica do modo de produção cooperativo (inviabilizado nos planos qüinqüenais centralizados que se impunham à sociedade desde o alto do capitalismo de Estado soviético), conquanto não-hegemônico, já está presente aqui e agora, convivendo, intercambiando e competindo com o modo de produção capitalista.

O alcance prático do paradigma de Singer, mediante a valorização do terceiro eixo do trinômio ensino-pesquisa-extensão, alicerçou-se na idéia de constituir cooperativamente a produção científica com as próprias comunidades que assim, articulando-se com a universidade e sem perder a diversidade, realizam-se, uma com a outra, como ensinantes e aprendizes.

O arcabouço do meu pensar-agir atual metabolizou como contribuição infra-estrutural, em convergência aos enriquecedores influxos do paradigma de Singer, a seguinte passagem do filósofo espinosano francês Laurent Bove:

… quando o Corpo humano, como ocorre na Hilaridade, é afetado por causas exteriores, mas igualmente em todas as suas numerosas partes, isso significa também que ele se afeta a si mesmo porque é também afetado por algo que é comum a todas as suas partes e/ou algo que é também comum a todos os outros corpos. Sua passividade extrínseca é, portanto, imediatamente correlativa a uma atividade real que, em última instância, é a da razão.

Em Espinosa, uma causa é dita interna com relação a efeitos que podem ser inteiramente explicados apenas pela natureza dessa causa. Na passagem em exame, uma causa interna é produzida a partir de uma afecção isônoma, isto é, de uma modificação que seja a mesma tanto no que concerne à relação entre as partes do corpo humano, quanto no que concerne à relação que essas mesmas partes mantêm com a totalidade do corpo. Considero que este achado de Bove é preciosíssimo para uma filosofia da liberdade, na medida em que, abrangendo a passagem da passividade extrínseca do corpo e da mente do indivíduo humano à atividade

interna do corpo e da mente comum, se fundamenta: 1) na ocorrência real de uma transformação que efetua uma relação proporcional (ou racional) entre partes e destas com o todo; 2) em que esta transformação produz, ao mesmo tempo, um modo de existência racional-real destas partes e deste todo; 3) em que este processo engendra um regime de autonomia quanto ao agir, ao sentir, ao imaginar e ao pensar.

Iluminando-se assim as condições imanentes da passagem do ser afetado ao afetar-se, surge a idéia de que a constituição de um corpo comum é um fenômeno afetivo que funda um campo transindividual de autoreflexão.

Enquanto afetivo, este fenômeno abre para o campo do inconsciente; porque inaugural de uma comum-unidade, este fenômeno abre para a origem e fundamento da sociedade e da política; porque anterior à interpretação e contemporâneo à urdidura de semelhanças e identificações, este fenômeno abre para o primado da interação afetiva na constituição do campo clínico; porque posição de um novo ser irredutível aos indivíduos dele componentes, este fenômeno abre para um pensamento neo-ontológico e para uma prática ontogenética, sendo que a idéia-guia daí resultante pode ser sintetizada no lema de que as condições de interação afetiva determinam o grau de autonomia das comunidades constituídas por essa mesma interação afetiva.

Esse campo transindividual de autoreflexão corresponde ao que, no Caso Hermes, eu designei como engenho instituinte, delineando-o como o objeto próprio de uma psicologia política.

 


 

1 Sefardim ou sefardita: Designação dos judeus descendentes dos primeiros israelitas de Portugal e Espanha (expulsos respectivamente em 1496 e 1492). Designação usual e genérica dos judeus originários de áreas mediterrâneas, isto é, da Grécia, do Norte da África, da península Ibérica. (Diferenciam-se dos ashkenazim, da Europa central e oriental.) Cf. www.dicio.com.br/sefardim

2 Cf. www.riogrande.com.br/historia/colonizacao7.htm .

1 Antes da Segunda Guerra, eram 77.178 os judeus na Grécia; depois, 4.930. Dos cerca de 56 mil judeus-espanhóis que em 1941 viviam em Salônica, cerca de 54 mil sucumbiram à barbárie nazista. Pereceram em campos de extermínio do III Reich duas tias paternas e oito primas-irmãs de David Calderoni.

Moysis Calderon, seu pai, nasceu na Grécia em 1917, durante a Primeira Guerra, em lombo de burro, quando a família buscava abrigo nas montanhas. Defendendo a Grécia na Segunda Guerra, Moysis foi capturado pelas forças italianas. Graças aos conhecimentos de judeu-espanhol, foi intérprete dos prisioneiros gregos, desarmados frente a uma língua latina. Após a Segunda Guerra, teve na Itália o nome modificado para Mosez Calderoni, aportando no Brasil em 1947.” [Texto extraído junto à letra da canção A Marcha de Moisés, de autoria de Sabetai e David Calderoni, integrante do encarte do CD Viação (1998), primeiro disco do autor deste livro.]

2 Essa cena foi assim recordada por meu irmão José: “O Tribunal por mim instituído, quando tinha 11/12 anos, pra recuperar as capinhas de relógio que compunham os jogos de botão de futebol de mesa, era muito bem constituído. Advogado de defesa, advogado de acusação, juiz, júri popular, e plateia ( dentre eles, você ). Eu fui a vítima e juiz também!! A pena foi extremamente rigorosa: DEVOLUÇÃO DAS CAPINHAS DE RELÓGIO!!! Manutenção da amizade com o amigo meliante com promessa de boa conduta futura do réu !!! Eu cedia, meus botões para que ele treinasse em nossa casa !!! E ele não satisfeito com a generosidade, levava o que eu emprestava, tirava as fotos que eu colava nas capinhas de relógio, e as pintava com esmalte para parecerem outras !!! Como viu a punição foi exemplar !!!

3 Cf. canções em www.davidcalderoni.art.br .

4 Bove, Laurent. “Hilaritas et acquiescentia in se ipso [Hilaridade e contentamento íntimo]” in Calderoni, David (org.). Psicopatologia: Clínicas de Hoje. São Paulo,Via Lettera, 2006, p. 50. Sublinhei.

 

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