Categoria Poeta

Coletânea de obras publicadas no Facebook e no Medium.

se a pétala branca tingida de sangue
o olhar recém-nascido percebe como rosa,
que do outro lado do espinho
o ódio não seja a última palavra.

Desaprender a pensar falar andar escutar ver cantar tocar respirar aspirar encenar acenar ser. Desapegar Despegar Desaver o polegar desse escrever. Nada mais oferecer a si e ao mundo. Sentir-se Flávio Migliaccio. E no final de sua mensagem derradeira, onde tudo até então era derrota de quaisquer esperanças, reencontrá-las na vital exortação: “-Cuidem das nossas crianças!”

Desponteante

Ói mariposas
Posando asas
Galáxias tesas
Luco-fusqueiam
Tremelicantes

Poentes nascem
Nascentes noites
Desadiantes
Dos doravantes
Vão-se espichando

Vão  pinicando
Desponteantes
As taturanas
Dos horizontes
Onde se casam

Lua e Luar

Lua e Luar
diferem no ausentar.
Qual crença sustenta a existência da primeira quando o segundo se esvai?
costume? memória? amor? ciência? filosofia que se naturaliza
ou a própria natureza da filosofia?

Um Minuto

Queria pedir com licença para pedir de modo gentil e respeitoso um minuto de silêncio (apenas um minuto de silêncio) para o silêncio de 7,5 bilhões de pessoas silentes silenciosas silenciadas na incalculável quantidade de moedas que tilintam em plenitudes de desvãos de fatos e direitos ecoando ando ando ando en-sur-de-ce-do-ra-mente mente mente mente entre impenetráveis esmagadores paredões que se espelham que se abraçam que se estreitam entre a Lei do Silêncio e o Silêncio da Lei.

M0MENT0

A flor está fixa e eu ando de cá para lá
Se há gênio na lâmpada diga-me como esfregar
Memória em vão de saudade é cal, mas é pá?
Caverna me importa se aporta um teto pra já

Caetano aprende com Gil a tocar violão
Zécarlos compõe com Geraldo uma bela canção
David vê um rumo no Rumo escutando seus sons
Já Chico me inscreve suas íris de mil megatons

Se hoje me pego contente episodicamente
Tributo essa glória ao construto de toda essa gente
O tempo é o que liga e desliga o corpo da mente
A obra de arte é o enquanto do eternamente

Poesia

A cigarra sente um formigamento
A cigarra sente que está formigando

A formiga sente um encantamento
A formiga sente a canção chamando

A canção não sabe se está de mudança
A canção não sabe se estão mutando

As três bailam na dança densa
Que pensa pensar a minha existência

Oração

a quem eu ame
eu desejo que ame
não me importa quem
ou me importa, amém.

Corpoamor

Se, entre o quitute e o dejeto,
da ingesta se extrai energia,
por que, nessa obra de orgia
extratora, algo seria abjeto?

Luto, Luto

Desvestirei o luto por este mundo
Quando mudar o mundo porque luto!

Desponteante

Tem borboletas
Abrindo asas
Galáxias sedas
No desdobrá-las
Se entremostram
No lusco-fusco
Poente nascente
Nascente noite
Surgindo adiante
Do doravante
Vai-se espichando
Vai pinicando
Desponteante
A taturana
Do horizonte

Rumo à Gaia

— De onde viemos?
— Da mãe!
— Aonde vamos?
— À Mãe!

Tudinho no fundo é janela

Aurora amanhece poesia
Bom dia a quem examina
Maçã na menina dos olhos
Olhar de futuro em peneira
Demétrio à cata de um verso
Impulso em pausa em seu dentro
Refluxo de instante a instante
Polias da esteira no avesso
Pupila e oculista em namoro
Mirante perante sua beira
Persona que um trauma mascara
Embalo cavalo escoiceia
Amor/Desamor num estalo
O filho no sonho da freira
Prudência que a vida receia
O ciclo franqueia o ovário
Respiro na trama da meia
Do torno saiu arruela
Distância da olheira à viseira
Rodeio ao núcleo do elétron
Metrô Liberdade no centro
Há lentes de aumento à miúde
Afresco que o agora craquela
Eu venho à pé à Saúde
O sacro da aura do cetro
Ki-Suco à memória em refresco
Da Vinci anterior ao espelho
Meu cego astrolábio é banguela
O halo da lua no escuro
História, ultramar do fraseio
Delírio que o vero revela
Parágrafo após a sentença
Os poros na pele da tela
Novela, domingo, quadrinho
Ausência, presença do imenso
Tudinho no fundo é janela
Estrela, espaço, estrela

Original no Medium.

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Hoje eu encontrei com meu pai
e dói pensar
o quanto ainda sou filho .

É preciso matar meu pai
teu , nossos pais .

Mas sobretudo é preciso
sabê-los morrer
para não cometer suicídio .

Informações

Em 1976, aos 18 anos, em virtude de estrofes encabeçadas pelo verso Hoje eu encontrei com meu pai, David foi declarado poeta pelo escritor, dramaturgo e psicoterapeuta Roberto Freire em artigo intitulado É preciso saber morrer o pai para não cometer suicídio, que Freire publicou no periódico Aqui São Paulo e republicou em 1977 na abertura do livro Viva Eu, Viva Tu, Viva o Rabo do Tatu!.

Imagem de capa: montagem sobre “Father and his Son” de Gabriel Decker.

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Não é contemplar
                            de longe
as letras na varanda-vitrine ;

é dormir com elas
no sertão do mundo

e gozar
      em cada vogal
                              a senda
                              a vereda
      em cada consoante

e conceber
             cada palavrinha bem composta
como o jagunço afiado

            que há de nos vingar
            que há de nos valer !

Publicado pela União Brasileira de Escritores na Antologia do Concurso Nacional Gilberto Mendonça Teles de Poesia.

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Sexo

Sexo não existe.
Precisa ser feito.
No homem, erigido.
Na mulher, cavado.

 

Oração para Haroldo

signo
igneo
hino
nu
 
cante
ante
ti
significante

Informação

Poemas publicados na edição de 11 de julho de 2004 do Caderno de Cultura do jornal Folha de São Paulo, acompanhados de ilustrações do artista plástico Felipe Cohen feitas especialmente para os poemas.

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Enviajando reúne uma série de poemas de David Calderoni escritos em momentos bem distintos. Os poemas trazem a marca de uma criação inquieta, lúcida e por vezes irônica. Alguns deles se lançam sobre o leitor de forma abrupta como se quisessem, com um pequeno empurrão, fazê-lo cair e tropeçar.

Definitivamente: teríamos outro modo de saber sobre o que nos funda senão através destas quedas? Adquira o livro

Ficha Técnica

Editora: Via Lettera
Autor: DAVID CALDERONI
Ano: 2004
Edição: 1

 

Degustação de poema

Religare (Por um fio)

Teletransporte
a sua viva

voz
através
de seu bege
telefone

Que eu aqui
dentro da concha
do orelhão
te ouço
pelo vermelho
aparelho

Mas nada falo.

Colho o som
cai a chuva
sobre o laranja
anteparo

Sou cinza céu cinza sou

Silencioso oro

 

Vídeo do lançamento

 

Palavras do prefaciador

Por Edson Luiz André de Sousa

Querido David,

Teus poemas me acompanham desde o final do ano passado. Diariamente pensava neles e arquitetava algumas ideias para o texto que me pediste. O desafio foi grande. Há algo de íntimo na poesia que por vezes constrange a intrusão de outras palavras.

Da leitura que fiz marquei algumas ideias e algumas passagens que me tocaram, mas nem todas entraram no texto final. Procurei ser sintético e de certa forma minimalista em meus comentários. São tuas palavras que devem falar e certamente se apresentam a si mesmas. Gostei muito da experiência embora, confesso, não tenha sido fácil.

Desculpe a demora mas vejo que tens este cuidado de quem sabe esperar… Por vezes, este é o tempo de que precisamos.

Um abraço carinhoso

Edson

 

Entrevista

Fazer música, poesia e psicanálise tem a ver com duas coisas estreitamente vinculadas: a pergunta pela origem das coisas e a necessidade de criar novas formas sensíveis. Tal necessidade brota da pressão expressiva do originário que ainda não tem nome. Sobre o barbante de que fala Maria Rita, eu diria que ser psicanalista é para mim, no mais das vezes, liberar o sutil onde o rude se amarra. E esse sutil é o mais singular de uma natureza que, voltando-se sobre si mesma, encontra força interior para sobrepujar as agruras do traumático.

Algo das relações simbólicas e imaginárias necessárias e universais de uma cultura só pode ser conhecido através daquilo que um sujeito produz de único.

Não há no pensar sobre a arte nada de aprioristicamente reducionista na utilização de dados biográficos – desde que postos a serviço de evidenciar motivos geradores latentes do próprio fazer artístico que, enquanto tal, parteja universos singularizantes.

Trecho da entrevista de David Calderoni concedida à jornalista e crítica de arte Juliana Monachesi por ocasião do lançamento em 27/03/2004 do livro de poemas Enviajando (Via Lettera, 2004) e do CD Regeneração (autoprodução, 2004). Acesse aqui a entrevista na íntegra.

 

Apreciação crítica (CD Regeneração e Livro Enviajando)

Por Marcos Cardoso Gomes

Li com cuidado alguns de seus poemas de Enviajando, já ouvi três vezes o disco Regeneração, detendo-me pouco em qualquer uma das músicas, apenas para me familiarizar com o som. Parece-me bom, tranqüilo, com letras a exigir reflexão. Particularmente Maná, nesta primeira safra de audição.

Uma das qualidades de seu trabalho é a habilidade de tratar a sonoridade das palavras. Você joga bem com elas. Agrada-me, por exemplo, num poeta como Ricardo Reis, o jogo sonoro de Colhamos flores / molhemos leves / as nossas mãos. Agrada-me o choque sonoro do lha com o lhe, mais o jogo sintático, flores, objeto e leves, predicativo do sujeito.

Você não faz propriamente essa alternância, mas desenvolve outras. Por exemplo: Olha o cabo / a corda / a amarra, sinonímia que segue em que ata / o barco / à borda, cruzando o jogo semântico ao sintático, na interessante comutação de fonemas: o / à, ar / or, c / d (estas últimas, da aproximada natureza constituinte, opostas no jogo surda / sonora). Acrescente-se o ritmo que permeia esses versos: há um nítida alternância longa / breve (tônica / átona) desde Olha o cabo / a corda / a amarra / que ata / o barco / à borda. Em grego, esse ritmo seria o troqueu. O ritmo mantém-se, apesar de aparentemente os versos se inciarem por sílabas átonas. Mas essas são engolidas pela última átona do verso anterior. Portanto, a divisão rítimica se faz assim: Olha o cabo a / corda a / amarra / que^a – ta o / barco à / borda.

A estrofe seguinte apresenta um apuro sonoro magistral: Dia rima com cria, Ave, com Nave, alga, com arde, num jogo L / R interessante; algas / Arde / Orla e tarde fazem um jogo magnífico, compondo-se com a vibrante R.

O poema denomina-se Cabo das horas. O cabo das horas poderá significar o cabo do barco, que o prende ao cais, mas ecoa nele “ao cabo das horas”, a passagem do tempo, marcada dentro do texto por Dia, tarde, Pérola argêntea que se refaz (entendi dessa imagem que você apontou o sol, e seu renascer diário – mas porque tarde, apresenta-se com características da lua, daí argêntea) Alento da ronda / das pássaras, Nasce / Negra corola, Água marmórea, a indicarem, por sua sucessão, os suceder das horas. O poema retrata uma paisagem sujeita ao tempo, mas que o congela nos versos finais, Sal leva e traz. Para os gregos homéricos, o mar era als, alós, que significa sal. Portanto, por metonímia nomeavam o mar. Você recuperou essa imagem de modo muito surpreendente, por salientou o mar por dois de seus característicos: a salinidade e as ondas.

Seu poema é o retrato estático do mar: nada acontece, senão o olhar imperturbável sobre a marina. O movimento recupera-se no olhar que se incia, digamos, aleatoriamente, pela amarra da nau, e estende-se aos aspectos distintos de uma paisagem: nave, algas, ondas, pássaras, cetáceo, tombadilho, seguindo sempre esse cabo das horas, o seguir no tempo. Cada imagem, sendo específica, acaba por incluir outras, criando uma mistura dos componentes marítimos: Mastro / Brilho cetáceo.

O poema é inteiro em si mesmo.

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‘Vagalumzzz’ é o segundo livro de poesia do psicanalista David Calderoni. Um pequeno livro-jóia, uma caixinha de surpresas recheada com inteligentes e bem humoradas reflexões filosóficas em forma de ligeiros poemas. Poemas que buscam a forma mais sintética, encontram a palavra exata e abrangem temas que vão desde a observação cotidiana àquelas questões que tiram o sono de filósofos e pensadores de todas as épocas. Adquira o livro.

Ficha técnica

Editora: Livraria Projetos Editoriais
Autor: DAVID CALDERONI
Ano: 2005
Edição: 1ª

 

Degustação de poema

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na intimidade do imenso
eu sinto
o imensamente ínfimo

(poente na mesa
o quase-existente
põe fome de nome
em fome de fome)

Zórtex é o terceiro livro de poesias de David Calderoni.

Ficha Técnica

Editora: Singular Digital
Autor: DAVID CALDERONI
Ano: 2012
Edição: 1

 

Degustação de poema

Zórtex

força do primórdio da fumaça
fonte da corrente da matéria
mito escrito em sânscrito na flâmula

magma que é glândula da terra
ritmo de um méxico em guerra
física fractal de um outro outro

chuva torrencial do absoluto
claustro de um refrão que não repete
som geral do abismo especialíssimo


Foto de Marcelo Abdo.

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