Como é possível que diferentes vertentes da psicopatologia possam dialogar, cooperando, transformando-se e enriquecendo-se reciprocamente, de modo a engendrar novos saberes e novas práticas?

Este livro permite vislumbrar a condição ética dessa interdisciplinaridade – a disposição para modificar-se à luz do outro, base para que a diversidade de especialidades transforme-se numa cooperação autenticamente pluralista e dialógica.

O leitor poderá prosseguir o diálogo ali onde os textos revelam-se como um trabalho auto-interrogativo: mais que especialista, cada autor é um curioso, pesquisador aberto às diferenças interdisciplinares porque aberto às diferenças que lhe são interiores. Afinal, em psicopatologia, a aventura do saber é também a do autoconhecimento. Adquira o livro.

Ficha técnica

Editora: Via Lettera
Autor: David Calderoni (Org.)
Ano: 2002
Edição: 1ª
ISBN: 8586932833
Número de páginas: 160

Orelhas

Caro leitor, eu sou a orelha do livro.

Diga-me: por qual meandro deseja penetrar nos labirintos da psicopatologia?

Se o seu interesse estiver voltado à história dessa disciplina, lendo adentrará com proveito o percurso de constituição das noções de doença mental, loucura e desrazão e palmilhará com espanto os caminhos pêlos quais a medicina veio a se tornar uma arte muda.

Se a sua predileção recair sobre as interfaces do bioquímico e do psíquico, ofereço na direção mente-corpo o que a psicoterapia vem buscando diante da drogadicção e, na mão inversa, um apanhado histórico dos avanços da psicofarmacologia no tratamento dos transtornos mentais.

Se o seu problema é diagnóstico, poderá trilhar muitas dimensões dessa questão na psiquiatria e, encaminhando sua interrogação aos fundamentos éticos da cura, poderá acompanhar a abertura terapêutica propiciada por diferentes reações frente ao paciente.

Se me seguiu até aqui, decerto o leitor é uma pessoa ligada à cultura. Siga as páginas. Elas o levarão a rincões da psicanálise deslindados pela bússola da arte e da religião, aportando também ao quanto esta pode favorecer a saúde mental, segundo uma perspectiva psiquiátrica que tem sido preconceituosamente desconsiderada.

Prometo que ao final da jornada o leitor escutará, multiplicadas, as indagações que ecoam no labirinto da orelha.

Psicopatologia: Psicofarmacologia, Psiquiatria, Psicanálise

Por David Calderoni

Os excelentes textos que compõem este livro foram elaborados ou reavivados tendo em vista o lançamento do Curso de Especialização em Psicopatologia NAIPPE/USP, evento que teve lugar no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da universidade de São Paulo em 27 e 28 de setembro de 2002.

Intitulado Psicopatologia: psicofarmacologia, psiquiatria, psicanálise, o evento centrou-se numa série de conferências organizadas em torno de quatro eixos temáticos: interfaces do bioquímico e do psíquico; percursos na história da psicopatologia; bases e critérios para diagnóstico e terapêutica; psicopatologia e cultura.

Dessa forma, procurou-se presentificar o espírito cooperativo e o campo de abrangência que estruturam de modo dialógico e plural o Curso de Especialização em Psicopatologia NAIPPE/USP.

Já na própria produção do evento de lançamento do Curso, tal cooperação e abrangência materializaram-se em diversas ações convergentes às quais aqui cabe prestar reconhecimento: o Prof. Dr. Francisco Lotufo Neto acolheu pronta e ecumenicamente o projeto do Curso, incorporou-se à sua equipe de coordenação e lhe franqueou a estrutura do AMBAN (Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP), onde pudemos contar com o prestimoso secretariado de Cristiane Pinheiro Lima e Luciana dos Santos; a Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, na pessoa do Digníssimo Pró-Reitor Prof. Dr. Luiz Nunes de Oliveira, destinou apoio financeiro ao evento, patenteando a percepção de que a pesquisa está no cerne de nossa proposta. A essas pessoas concretizamos nossa gratidão nessa obra coletiva que testemunha o sentido de seus esforços.

Somando-se a esses decisivos apoios, dignas de nota foram as presenças, na abertura do evento, do Prof. Dr. Braz Araújo, Coordenador Científico do NAIPPE/USP, e do Dr. Oswaldo Ferreira Leite Netto, Diretor do Serviço de Psicoterapia da FMUSP. Assim como na abertura do evento, a presença de ambos nos textos de abertura da presente publicação vem reforçar a tradição humanista da psicopatologia e atestar o reconhecimento acadêmico da USP à sua dimensão político-estratégica.

Certamente, há questões macropolíticas candentes que marcam a contemporaneidade psicopatológica e contextualizam a dimensão ética das propostas do Curso, Em nível nacional, destacam-se os debates e providências que envolvem a chamada reforma psiquiátrica, em que se jogam as questões da inclusão e exclusão social correlativas a diferentes estratégias de diagnóstico e, sobretudo, de tratamento. No plano da Organização Mundial da Saúde, a decretação da moratória para a revisão dos sistemas internacionais de classificação das doenças mentais põe em xeque os postulados de ateoricismo e de neutralidade política e axiológica na base dos critérios taxonômicos, abrindo campo à cooperação interdisciplinar para redefinição de fundamentos epistemológicos e encaminhamento de novas propostas de compreensão do sofrimento psíquico em que a perspectiva etiológica retoma sua legitimidade.

Sendo tais questões macropolíticas do interesse do Curso de Especialização em Psicopatologia NAIPPE/USP, não devemos esquecer que são os dispositivos micropolíticos cotidianos que constituem amiúde o espaço concreto onde se materializam a forma e o conteúdo dos cuidados para com a saúde mental.

Tendo isso em conta, pensamos que é na qualidade ética de cada membro de uma ampla equipe multidisciplinar que se decidem o sentido e o alcance de nossa proposta de ensino e pesquisa. Este livro permite vislumbrar essa qualidade ética – a disposição para se modificar a luz do outro, condição para que a diversidade de especialidades transforme-se numa cooperação autenticamente pluralista e dialógica.

Colaborador ou docente do Curso, mais do que especialista, cada autor é um curioso, pesquisador aberto às diferenças interdisciplinares porque aberto às diferenças que lhe são interiores. Afinal, em psicopatologia, a aventura do saber é também a do autoconhecimento.

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