Estas páginas arregimentam cuidadores da vida humana que tomam posição em fronteiras de pensamento da psiquiatria, da terapia ocupacional, da psicanálise e dos estudos espinosanos.

Trabalhando para promover e compartilhar a saúde do corpo e a liberdade da alma, os autores produzem pesquisas ambientadas nas interfaces da epidemiologia, da filosofia, das artes e da crítica social.

Os textos demonstram e oferecem constantes reflexões sobre os fundamentos epistemológicos e históricos de disciplinas voltadas à compreensão e à superação de mal-estares e padecimentos individuais e coletivos.

Uma transdisciplinaridade autocrítica desenvolve-se assim nas abordagens que chegam às suas mãos, leitor – e é em seu diálogo interior, trabalho de leitura, que as propostas aqui consteladas lançam-se à sua sorte. Pertencerão à ordem do dia? Se os presentes estudos revelarem-se elementos práticos para enfrentar sofrimentos fundamentais, renascerão efetivamente como Clínicas de Hoje. Adquira o livro.

Ficha técnica

Editora: Via Lettera
Autor: David Calderoni (Org.)
Ano: 2006
Edição: 1ª
ISBN: 8576360314
Número de páginas: 176

Apresentação

Por David Calderoni

Este livro reúne trabalhos apresentados ou inspirados no evento Psicopatologia: Clínicas de Hoje, título e tema geral do Segundo Ciclo Anual de Conferências e Debates do Curso de Psicopatologia NAIPPE/USP, ocorrido em 12 e 13 de dezembro de 2003 no Anfiteatro do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

O laço essencial que vincula o Curso de Psicopatologia NAIPPE/USP com as clínicas de hoje, tema do evento – e deste livro -, radica no que faz do Curso um projeto singular e complexo.

Trata-se da proposta de fundamentar e estabelecer um campo de diálogo entre a psicofarmacologia, a psiquiatria e a psicanálise sobre as formas de diagnóstico e tratamento do sofrimento psíquico, a partir da história da Psicopatologia e da sua contemporaneidade.

Além do pressuposto ético que consiste na disposição para modificar-se ã luz do outro, quais seriam as condições epistemológicas para um diálogo entre práticas e saberes tão diversos em suas linguagens, métodos e técnicas? E em que tal diálogo teria a ver com as clínicas de hoje?

Postulamos dois eixos para a articulação intercientífica das diversas vertentes da psicopatologia: a história e a clínica.

Permitindo repensar uma clivagem que nem sempre favorece os sujeitos que buscam ajuda profissional para estabelecer ou restabelecer o seu bem-estar físico/psíquico, o estudo da história da psicopatologia leva a reabitar, em estado nascente, lógicas e valores, cenários e personagens, atos e discursos em cujo contexto uma medicina do corpo separou-se de uma Medicina da alma.

Ora, na medida em que estabelecer ou restabelecer o bem-estar físico/psíquico de sujeitos sofrentes constitui a razão de ser da psicofarmacologia, da psiquiatria e da psicanálise, é justo pensar que essas vertentes da psicopatologia encontram um solo comum inconteste na clínica, isto é, nas práticas de tratamento.

Nas interfaces da epidemiologia, da filosofia, das artes, da crítica social e de uma plêiade de invenções instituintes, fronteiras de pensamento perpassadas de amor, sangue, suor e sonho chegam às suas mãos, leitor -e é em seu diálogo interior, trabalho de leitura, que as propostas e os estudos aqui reunidos lançam-se à sua sorte. Pertencerão à ordem do dia? Se os presentes escritos revelarem-se elementos práticos para enfrentar sofrimentos fundamentais, renascerão efetivamente como clínicas de hoje.

Orelhas

Por David Calderoni

Num feliz encontro de rigor e pluralidade, esta coletânea de idéias e ações amplamente úteis no campo das intervenções diagnosticas e terapêuticas se distingue pela coexistência do notável empenho na busca de fundamentos teórico-práticos de cada um dos ensaios que a compõem e pela abertura dialógica propiciada em suas abordagens singulares.

No primeiro artigo, procuro mostrar que a perspectiva científica de Aristóteles está entranhada na estrutura do procedimento diagnóstico contemporâneo. Em contraste a essa postura dominante, ressalto implicações metodológicas e ontológicas da adoção da perspectiva potentemente inovadora do conceito de singularidade de Espinosa.

E é Laurent Bove que apresenta, justamente através da teoria espinosana dos afetos e paixões, uma reflexão preciosa sobre as condições para que a atividade supere a passividade, propiciando o desenvolvimento de uma existência intelectual e ética estruturada na força do amor de si equilibrado.

A artista plástica Elisa Bracher transmite desde o seu ateliê-laboratório percursos sensíveis, firmes e eficazes rumo à arquitetura de um tempo-lugar de reconstrução para uma matéria humana mais-que-dolorosa.

André Malbergier, por sua vez, circunscreve a AIDS mediante dados epidemiológicos, psicopatológicos e neurológicos, permitindo a compreensão dos quadrantes psicossociais do uso de drogas injetáveis, das tentativas de suicídio e das reações do paciente quando comunicado da sorologia positiva para o HIV.

Num giro em direção à história da cultura, Noemi Moritz Kon enriquece as clínicas de hoje mostrando o quanto estão perpassadas – saibam ou não – pelo diálogo entre literatura e psicanálise. Como paradigma de equilíbrio entre a razão e o que a precede ou supera, a autora convida o clínico a sustentar-se como sujeito da incerteza em prol do alargamento do espaço de autonomia de quem o procura.

Renovando a tradição fenômeno-estrutural, Guilherme Messas imprime sua peculiar perspectiva psicopatológica pela consideração da estrutura temporal como determinante fundamental do diagnóstico e da psicofarmacoterapia num caso de constelação alcoólica.

Tratando de um dispositivo grupal em que a invenção e a intervenção coincidem na interrogação do que favorece o nascimento de uma forma, Paula Francisquetti nos apresenta sua experiência clínica e dramatúrgica com seus pacientes e parceiros de palco.

Nayra Ganhito narra a singular história institucional de um sujeito desprovido de passaporte afetivo de inclusão e a reengenharia clínica para a reversão desse quadro.

Instrumentada por Winnícott, Tânia Vaisberg propõe a travessia das agonias impensáveis e do sem-sentido do mundo, apresentando materialidades mediadoras que ampliam efetivamente os recursos de tratamento de pacientes em que grita mais a problemática não neurótica.

Tales Ab’Sáber propõe uma prática psicanalítica dialética em que, a contrapelo das pautas dominantes, poesia e pensamento, acolhidos desde o infantil, não se excluem nas relações sociais fundantes do humano.

Solange Tedesco e Flávia Liberman apresentam a terapia ocupacional como uma clínica do investimento do capital de mutualidade que torna as relações humanas relações e humanas, na medida mesma em que possibilitam a observação e a realização de múltiplas formas de engendramento entre o fazer e o conhecer.

Desejamos que a experiência de leitura constitua lances no interjogo das práticas clínicas tomadas como práticas da saúde, da liberdade e, vale dizer, da felicidade.

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