O aparelho auditivo de Hermes lhe teria permitido registrar as palavras da professora? Talvez não. Hermes foi parar num hospital? Não, mas passou por vários, até encontrar um onde pôde ser ouvido. E quanta coisa a mãe de Hermes me contou! Mas essas são histórias para outras palavras.

Dando a saber o que não se sabe, o psicólogo comunica o irreprodutível e o indizível. E o próprio impulso para dar nome à criança de que trata este texto nasceu da leitura do que Ernildo Stein escreveu sobre “a responsabilidade e o risco do tradutor. Ele não é apenas a ponte entre a língua-fonte e a língua-meta: é também, por excelência, o mensageiro (Hermes) que veicula o sentido”. Adquira o livro.

Apresentação – Carta ao Leitor

Este livro corresponde à minha dissertação de mestrado, apresentada numa tarde ensolarada de junho de 1994 ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Anuncio sua matéria.

Em 1986, no curso de um Programa de Trabalho na Área Psicológica junto a creches municipais de São Paulo — que incluía a intervenção nas relações institucionais e, articulado a isso, o psicodiagnóstico de crianças —, realizei o atendimento de Hermes, 5 anos, diagnosticado empiricamente por agentes de sua creche como praticamente incapaz de pensamento e de linguagem (“débil-mental e surdo”).

Tendo as providências diagnósticas sido acompanhadas de um contradiagnóstico institucional (destinado a desconstruir o diagnóstico empírico de debilidade mental e auditiva), procuro refletir sobre o processo conjunto que permitiu reverter a exclusão da criança, transformar o modo pelo qual era percebida e encaminhar um saber positivo sobre o seu psiquismo.

O leitor tem em mãos a história desse processo, ao qual veio se juntar um acontecimento digno de nota.

Ao retomar o material para publicação, evidenciou-se fortemente, mais uma vez, o fato de que a apresentação pública da dissertação foi ocasião de trabalho constitutivo do sentido do próprio caso.

Sensíveis a isso, Marlene Guirado (orientadora), Maria Luisa Sandoval Schmidt e Sérgio Cardoso, membros da banca examinadora, bem como Myriam Chinali, editora, encamparam a idéia de um posfácio contendo a transcrição da defesa.

A proposta foi a de manter o tom oral e a experiência calorosa daquela memorável e dialógica tardada, cuja força crítica confere ao texto uma contudente atualidade.

Aos membros da banca e à editora ofereço, pois, renovados agradecimentos. E, ao leitor, parceria na conversa.

São Paulo, outubro de 2004.
David Calderoni

Primeira orelha

Por Renato Mezan

Generosidade, imaginação, sensibilidade clínica: termos que bem caracterizam o livro que o leitor tem em mãos. Sensibilidade na condução das sessões e no trato com os adultos que circundam o pequeno Hermes; sensibilidade ainda na leitura arguta dos desenhos e dos testes deste garoto de cinco anos, cujo comportamento inadequado numa creche pública motivou a intervenção do psicanalista. Imaginação, no construir uma rede de referências para situar e compreender os nexos do material com o entorno institucional e social no qual ele ganha sentido.

Generosidade, ao abrir aos leitores janelas para a filosofia, para a estética e para a política, eixos que balizam a discussão propriamente metapsico-lógica da experiência de e com Hermes.

A estes traços, é preciso juntar a formulação conceitual precisa, a clareza na exposição de conceitos pouco familiares a quem vem da Psicologia acadêmica (como os emprestados ao filósofo Espinosa ou ao cientista político Guilhon Albuquerque), e uma invulgar facilidade no manejo das palavras, do seu ritmo e da sua combinação — que vem a David, com certeza, de sua experiência como poeta e compositor.

O relato, documentado com as imagens produzidas pelo menino, vai sendo assim sucessivamente trançado aos diversos níveis de reflexão: estudo do ambiente familiar e do seu potencial traumático, dimensão institucional do trabalho na creche, políticas públicas e política tout court, aspectos estéticos das imagens (úteis também no trabalho de interpretar), até chegar aos elementos filosóficos que estruturam e fundamentam o trabalho clínico.

Hermes era o deus grego das passagens, do comércio, das encruzilhadas: metáfora para os vínculos e para a circulação — e é sobre isso que David Calderoni, finalmente, tem tanto a nos ensinar. Boa leitura!

Apreciações críticas

Distinção e Louvor “pela inovação na constituição de um campo de investigação/ intervenção psicológica no âmbito institucional e pelo virtuosismo na interpretação dos elementos configurados no Caso em análise”.

Comissão Julgadora da Pós-Graduação do Instituto de Psicologia da USP, composta pela Profª. Drª. Marlene Guirado (orientadora), pelo Prof. Dr. Sérgio Cardoso e pela Profª. Drª. Maria Luísa Sandoval Schmidt

A obra apresenta complexidade teórica, originalidade e, por isso, traz contribuições importantes para o campo de pesquisa e de atuação. E o resultado final (o livro impresso) é bastante satisfatório, pois contempla plenamente todos os requisitos.

Assessores da Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo

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