Enviajando reúne uma série de poemas de David Calderoni escritos em momentos bem distintos. Os poemas trazem a marca de uma criação inquieta, lúcida e por vezes irônica. Alguns deles se lançam sobre o leitor de forma abrupta como se quisessem, com um pequeno empurrão, fazê-lo cair e tropeçar.

Definitivamente: teríamos outro modo de saber sobre o que nos funda senão através destas quedas? Adquira o livro

Ficha Técnica

Editora: Via Lettera
Autor: DAVID CALDERONI
Ano: 2004
Edição: 1

 

Degustação de poema

Religare (Por um fio)

Teletransporte
a sua viva

voz
através
de seu bege
telefone

Que eu aqui
dentro da concha
do orelhão
te ouço
pelo vermelho
aparelho

Mas nada falo.

Colho o som
cai a chuva
sobre o laranja
anteparo

Sou cinza céu cinza sou

Silencioso oro

 

Vídeo do lançamento

 

Palavras do prefaciador

Por Edson Luiz André de Sousa

Querido David,

Teus poemas me acompanham desde o final do ano passado. Diariamente pensava neles e arquitetava algumas ideias para o texto que me pediste. O desafio foi grande. Há algo de íntimo na poesia que por vezes constrange a intrusão de outras palavras.

Da leitura que fiz marquei algumas ideias e algumas passagens que me tocaram, mas nem todas entraram no texto final. Procurei ser sintético e de certa forma minimalista em meus comentários. São tuas palavras que devem falar e certamente se apresentam a si mesmas. Gostei muito da experiência embora, confesso, não tenha sido fácil.

Desculpe a demora mas vejo que tens este cuidado de quem sabe esperar… Por vezes, este é o tempo de que precisamos.

Um abraço carinhoso

Edson

 

Entrevista

Fazer música, poesia e psicanálise tem a ver com duas coisas estreitamente vinculadas: a pergunta pela origem das coisas e a necessidade de criar novas formas sensíveis. Tal necessidade brota da pressão expressiva do originário que ainda não tem nome. Sobre o barbante de que fala Maria Rita, eu diria que ser psicanalista é para mim, no mais das vezes, liberar o sutil onde o rude se amarra. E esse sutil é o mais singular de uma natureza que, voltando-se sobre si mesma, encontra força interior para sobrepujar as agruras do traumático.

Algo das relações simbólicas e imaginárias necessárias e universais de uma cultura só pode ser conhecido através daquilo que um sujeito produz de único.

Não há no pensar sobre a arte nada de aprioristicamente reducionista na utilização de dados biográficos – desde que postos a serviço de evidenciar motivos geradores latentes do próprio fazer artístico que, enquanto tal, parteja universos singularizantes.

Trecho da entrevista de David Calderoni concedida à jornalista e crítica de arte Juliana Monachesi por ocasião do lançamento em 27/03/2004 do livro de poemas Enviajando (Via Lettera, 2004) e do CD Regeneração (autoprodução, 2004). Acesse aqui a entrevista na íntegra.

 

Apreciação crítica (CD Regeneração e Livro Enviajando)

Por Marcos Cardoso Gomes

Li com cuidado alguns de seus poemas de Enviajando, já ouvi três vezes o disco Regeneração, detendo-me pouco em qualquer uma das músicas, apenas para me familiarizar com o som. Parece-me bom, tranqüilo, com letras a exigir reflexão. Particularmente Maná, nesta primeira safra de audição.

Uma das qualidades de seu trabalho é a habilidade de tratar a sonoridade das palavras. Você joga bem com elas. Agrada-me, por exemplo, num poeta como Ricardo Reis, o jogo sonoro de Colhamos flores / molhemos leves / as nossas mãos. Agrada-me o choque sonoro do lha com o lhe, mais o jogo sintático, flores, objeto e leves, predicativo do sujeito.

Você não faz propriamente essa alternância, mas desenvolve outras. Por exemplo: Olha o cabo / a corda / a amarra, sinonímia que segue em que ata / o barco / à borda, cruzando o jogo semântico ao sintático, na interessante comutação de fonemas: o / à, ar / or, c / d (estas últimas, da aproximada natureza constituinte, opostas no jogo surda / sonora). Acrescente-se o ritmo que permeia esses versos: há um nítida alternância longa / breve (tônica / átona) desde Olha o cabo / a corda / a amarra / que ata / o barco / à borda. Em grego, esse ritmo seria o troqueu. O ritmo mantém-se, apesar de aparentemente os versos se inciarem por sílabas átonas. Mas essas são engolidas pela última átona do verso anterior. Portanto, a divisão rítimica se faz assim: Olha o cabo a / corda a / amarra / que^a – ta o / barco à / borda.

A estrofe seguinte apresenta um apuro sonoro magistral: Dia rima com cria, Ave, com Nave, alga, com arde, num jogo L / R interessante; algas / Arde / Orla e tarde fazem um jogo magnífico, compondo-se com a vibrante R.

O poema denomina-se Cabo das horas. O cabo das horas poderá significar o cabo do barco, que o prende ao cais, mas ecoa nele “ao cabo das horas”, a passagem do tempo, marcada dentro do texto por Dia, tarde, Pérola argêntea que se refaz (entendi dessa imagem que você apontou o sol, e seu renascer diário – mas porque tarde, apresenta-se com características da lua, daí argêntea) Alento da ronda / das pássaras, Nasce / Negra corola, Água marmórea, a indicarem, por sua sucessão, os suceder das horas. O poema retrata uma paisagem sujeita ao tempo, mas que o congela nos versos finais, Sal leva e traz. Para os gregos homéricos, o mar era als, alós, que significa sal. Portanto, por metonímia nomeavam o mar. Você recuperou essa imagem de modo muito surpreendente, por salientou o mar por dois de seus característicos: a salinidade e as ondas.

Seu poema é o retrato estático do mar: nada acontece, senão o olhar imperturbável sobre a marina. O movimento recupera-se no olhar que se incia, digamos, aleatoriamente, pela amarra da nau, e estende-se aos aspectos distintos de uma paisagem: nave, algas, ondas, pássaras, cetáceo, tombadilho, seguindo sempre esse cabo das horas, o seguir no tempo. Cada imagem, sendo específica, acaba por incluir outras, criando uma mistura dos componentes marítimos: Mastro / Brilho cetáceo.

O poema é inteiro em si mesmo.

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